Posts Tagged ‘judas’

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Esperança

17/08/2012

Estava, como eu próprio pareço estar sempre, num inferno de desolações. Pedi-lhe que rodasse as faces ao prisma de modo a perspectivar as coisas de outro ângulo; que não se concentrasse tanto nos sóis por acender, mas, sim, na quantidade de estrelas ateadas na quentura do seu lume; que os sentimentos são geometrias de lados infinitos; que, em horas difíceis como as que vivemos, certos defeitos bons são melhores que as piores virtudes; que o tronco de inquietações em que se encontrava tinha tantos anos quantos tem esta velha Humanidade; que ninguém se pode arrogar postilhão de uma cartilha por procuração da consciência, pois que o caminho da salvação fraterna do Homem se faz por aproximação à sua essência. E quando dei conta, estava a granjear uma esperança oculta que, escassas vezes, tenho tido a coragem de propor a mim mesmo senão em esparsos gemidos prolongados. Evidentemente que, indo ainda a meio da viagem, não tenho melhoras possíveis. Nisto de forjar o ferro da esperança com maço e bigorna de pau, não conto ver o fundo ao saco. Sei bem que não convenço ninguém com jaculatórias desta natureza e que nos trinta argumentos daquela conversa me traí numa traição de Judas. Ainda bem. Gosto de viver os meus dias movido pelas rodas dentadas da dúvida permanente.

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Rocha Negra

18/06/2012

A Rocha Negra é uma das mais belas tragédias telúricas de onde se pode contemplar o buliçoso litoral algarvio. Vista do sul, a apascentar rebanhos de carneiros num agitado e viçoso pasto salgado e cor de esmeralda, emproada na sua dureza fuliginosa, parece sabiamente separada da desoladora paisagem urbana circundante. Vestígio inapagável de vulcanismo na região, estéril, inefável e agressiva, as ondas não lhe aleijam os pés, o sal não lhe abre gretas na tez parda, as brisas nebulosas não lhe ofuscam as vistas e o homem não lhe alcança a verdadeira grandeza do âmago senão a partir mar, embarcado numa casca de noz. Nos mais de 70 milhões de anos da sua existência geológica, e nos 200 mil de homo sapiens, nenhum dos Judas que venderam cada pedaço de praia ao mafarrico, deitando as sementes do cimento armado no chão das figueiras que mandaram cortar para não pendurarem, depois, os remorsos da traição à terra, lhe concedeu a honra devida. Ou a louvá-la, cantando-lhe loas, ou, à falta de figueiras, a beatificá-la, atirando-se dos píncaros deste ermo e a estatelar-se no fundo do abismo.