Posts Tagged ‘Mercado’

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Casa roubada, chaves na porta

25/11/2009

 

Disseminados que estão o latrocínio e a gatunagem por tudo o que é alcaçaria e bulevar, não é de estranhar o aparecimento das mais artificiosas formas de perder o menor número de bens, em caso de roubo. A chave pendurada atrás do vidro é o reflexo de uma das bem-aventuranças da economia, o efeito de substituição, cuja tese doutrinal indica que o preço de um bem aumenta levando à sua substituição por outro tipo de bens, menos caros, permitindo a satisfação da mesma necessidade embora a menores custos. Não percebeu? Repor um vidro é mais barato que repor uma fechadura, o ladrão pode continuar a roubar e o comerciante pode continuar a vender na tabanca.

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Mark thing: zona «ero»

11/11/2009
euros

Fotografia: Feira de Portimão.

Na tavolagem em que se transformou a economia mundial dos nossos dias, tem sido deprimente ver como serviços, mercadorias e moedas estrangeiras têm desvalorizado face ao euro. A boa notícia no meio disto tudo é  que na finança da plebe, das feiras e mercados de rua, surgiu uma nova moeda forte a alumiar a actual tendência deflacionaria, aliada a estratégias de marketing agressivo e estímulo ao consumo. Alguém tem a crença vacilante quanto à dimensão exportadora do comércio a retalho de base popular?

Assim se escreve, em bom português.

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Sexta-Feira 13, dia de Mercado

10/05/2009

No Largo terraplanado onde outrora existia só o vale da Ribeira do Ambrósio, a turva água e as árvores, era Sexta-Feira 13. E, como em qualquer outra Sexta-Feira 13, era, inevitavelmente, dia de mercado em Monchique.

Confundem-se-me os sentidos em dias de mercado:

O som dos ferros a bater enquanto as estacas cravam o chão, os contrastes de tons pastel das lonas das tendas, as melodias das cassetes e CD’s piratas, gastos por vozes de artistas pimba que só os tendeiros e ciganos sabem cantar de cor, e cujas capas amareladas definham ao laranja do sol que as carcome impiedosamente, mercado após mercado.

O cheiro a guloseimas dissipado por entre a acidez das bolas de naftalina, leva-me a perguntar a mim próprio o que é que é o quê. Se são as gomas que se deixam contagiar pelo cheiro “nafatlínico”, se são as bolas de naftalina que estão embrulhadas no celofane vermelho dos flocos de neve.

São os tendeiros, aninhados nas barracas desertas de fregueses e de empurrões, apregoando calma e a liberdade de escolha nos pares de peúgas, todos iguais, com risquinha e com raquete, e que fritas, com ovo a cavalo, talvez se mastiguem melhor que alguns bitoques que por vezes nos calham em sorte em restaurantes típicos. 

E são os berros e os choros “achibatados” dos garotos ciganos, que se tornam agrídoces naquele óleo fervilhando  ranço, na tenda dos churros, serengonhos, malaquecos e filhós.

Gosto do mercado e do enleio que me provoca aos sentidos. Por lá passo a caminho do trabalho, por lá deslizo quando regresso a casa.

Enquanto atravessava o caminho que se ergue sobre o largo, feito de pedras soltas e arranhado pela chuva, aquele dia de mercado, Sexta-Feira 13, transformou-se em dia de azar. Não para mim, mas para a cigana que no meio do caminho, de cócoras e saias pretas nas mãos, com as costas voltadas, defecava aquilo que um dia depois mais parecia uma cepa de urze encrespada nas pedras soltas e nas daninhas.

Mantive o rumo e desviei-me daquela figura como se nada fosse. Maldita a hora em que passei pelo mercado e não parei para comprar um par de peúgas antes de subir o caminho ladeirento e de pedras soltas que me leva até casa.