Posts Tagged ‘Pedras’

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A minha Picota

19/11/2012

Ontem, o mar, hoje, a montanha. Desanimado, meti-me pelos cerros acima até chegar ao topo da Picota, onde alívio agora a minha aflição desiludida seguindo religiosamente a prescrição de uma dieta geológica à base de micas e feldspatos. Perdido como um cão apavorado pelo rebentamento da pólvora, tinha de ser aqui, no cimo desta penedia nua, no centro de uma pobreza cristalina, que eu podia encontrar-me na tradução física exterior dos meus calvários interiores. Uma alma solitária, atribulada, purulenta e em carne viva, submissa à realeza de uma mole titânica, também ela descarnada de revestimentos, exercendo um domínio imperial sobre a restante paisagem estendida a seus pés. Lado a lado, um vulcão de lava eruptiva presumida e um vulcão de lava emotiva reprimida a compreenderem-se nos silêncios gretados das pedras. Exageradamente, tanto tenho ampliado com a lupa dos sentidos a rudeza inexpugnável destes rochedos sieníticos, que dou por mim a desejar ser um aditamento mineral da sua fácies, apenas posto a nu nas areias estéreis de uns míseros poemas cantados às erosões da vida.
Fez-se tarde. Um hálito frio de nortada lambe tudo e barbeia-me a cara em restolho. Lá em baixo, na vila, charutos de fumo acendem-se sobre os telhados, esbatendo a nitidez às pregas da paisagem. Chama-me a lareira doméstica. Deixo de ser espectador enfeudado à Natureza e desço de novo até mim; até esse vale de lágrimas onde serei outra vez serras e serras de tristeza agreste até perder de vista.

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Pedras

16/02/2012

Não sei como consegue. Cumpliciando-me na catarse, vai cavando, removendo laboriosamente o saibro inútil do fundo da galeria, e quando vou a dar conta, estou a deitar cá para fora as gangas todas.

– As minhas vidas… Uma que parece, outra que se exibe. Uma é só cascalho e a outra, íntima, funda, afectiva, é só rocha-mãe.

– Olha que entre a rocha-mãe, às vezes, encontram-se filões raros de pedras preciosas…

– É um facto. Mas olhe que de pedras percebo eu.

Não sei se a convenci. Acontece, realmente, que tardo em apanhar o veio a pulsar na nascente dos dias. É sempre em esforço que me afeiçoo ao dom de viver. Nunca consegui ser mais que um pobre e absurdo trovador de naturezas mortas.