Posts Tagged ‘Rios’

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Eflúvio

12/03/2013

Um caudal canta atrás de nós.
Um rio persegue a foz
Na música calma da Lua.
Há nela qualquer coisa que flutua…
Um tom limpo no ar líquido da voz
Igual ao desatar de nós
Correndo no respirar da tua
Quando somos a natureza a sós
E molhas beijos no meu rosto.
Como se eu fosse calor de estio
E tu a sede deste rio
Beijando as serras em Agosto.

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Travessia

02/01/2013

De mim para mim,
Entre os eus que me moldam a paisagem,
Quem sou, resvalado numa imagem?
Um abismo sem fim,
Uma ponte sobre um rio de cetim,
Ligando o vazio a outra margem.

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Guadiana III

13/08/2012

Última carótida meridional,

Um caudal

De renúncia e de amargura

Corre para fora de Portugal

Num veio de pó e de frescura.

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Guadiana II

12/08/2012

Mais um giro pelo meu Portugal. E atirei-me ao Guadiana contorcido por uma curiosidade ibérica toda aos saltos. Um Douro meridional sem escarpas sulfatadas, mas com míldio no tutano, turbantes de azinho nas cabeceiras e barbichas de restolho árabe nas margens. Deitado sobre uma tarimba de mormaço, corre numa rotina cansada de lavar de fresco os pés de tanta secura, abraçando, ao fim de léguas e léguas de tédio desesperado, o mar, imerso num banho de água choca. Descendo na sua estrada de águas lisas, sonolentas, a devolver ao céu as suas mágicas centelhas luminosas e sem a aflição dos cachões, não pede meças ao seu parente duriense. Mas tal como aquele abismo de suor e significação, também este caudal é um rasgar permanente de humanidade e revelações: com paixões irreprimíveis, desilusões exaustas, esperanças descampadas, sangue estreme, sonhos desmedidos e tristezas desamparadas que se deixam arrastar num fôlego extensivo, é um Jordão expressivo onde os homens, crismados por esta pia de dignidade natural, justificados nos estímulos enigmáticos consentidos pelo meio, têm que renascer no feitio cândido e solitário de todos os dias.

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Guadiana I

12/08/2012

Guadiana. Estes caudais fronteiriços lembram-me sempre separadores aquosos de grandes livros escritos a terra. De um lado, a caligrafia de Camões; do outro, a de Cervantes.

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Mar luso

26/05/2012

Rio caudaloso

De todos os rios.

Lastro saudoso,

Cioso

De sonhos e façanhas

Feitos de lágrimas, suores e calafrios

Arrancados às entranhas

Das montanhas.

Corre, trilhado,

Em ímpetos planos.

Ondas mortas contam os anos

Que te afastam do passado

Português.

Esperam que sejas, mais uma vez,

Calmaria de uma imensidão deslumbrada,

Torrente aflita

Que se agita

Em cachões de água salgada.