Posts Tagged ‘torrente’

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Carnaval

09/02/2013

Cortejo carnavalesco de crianças pelas ruas da vila. Um somatório de sonhos individuais congregados num rio intenso de cores e entusiasmo, folia e travessuras, por onde também desfilei há anos, trajado de palhaço. Uma torrente animada de possibilidades a inundar-me a alma de esperança em ver tantos sorrisos a desaguar no mar alto do futuro. A comandar o caudal infantil, um carro alegórico de onde escorria uma música exótica cujo tom, baixando uma oitava em cada metro, se esbatia lentamente nos drenos alongados da distância e da multidão, e chegava num murmúrio menos viçoso aos de trás. Talvez aqui esteja a alegoria mais significativa do grande carnaval da vida. Nascemos como rios impetuosos de força e de grandeza, damo-nos a todas as sinfonias e a todas as fantasias do porvir. Depois, as secas do tempo, os açudes sociais e os transvazes do carácter afastam-nos cada vez mais da nascente, e já só conseguimos lavar as desilusões que infligimos a nós próprios e aos outros pela música fantasiada que trazemos agarrada à lembrança.

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Traído na traição

23/07/2012

Quanto mais atafulhado em montes de não sei que maciço desespero, de despeitada indignação, de surda revolta, mais me apetece pegar neste caderno e prensar a viva voz de certos desabafos impulsivos entre linhas rasas de serenidade. Acontece que nem sempre me dou à claridade dessa disciplina contemplativa e tudo me sai revelado ao invés. Dou a volta ao mundo a arredondar a fraternidade das melhores amizades; sou incorrigível na lealdade aos que, denodadamente, mais admiro; aposto a seiva pessoal no matagal colectivo. Mas, tolhido por uma consciência impulsiva que transfigura a inexpressividade crónica das decepções numa tempestade agónica de crispações, já não há deferência ou ouvidos compreensivos que coincidam com as minhas razões. Tudo me é imperdoável num mar de aparências. Sobretudo ao cristal dos meus próprios olhos. A franqueza parece rudeza, a rebeldia teimosia, a exigência intransigência. A torrente temperamental rebenta o dique do pudor, mas não esvazia toda a sinceridade sedimentada nos fundões da consciência. Na roga das confidências, fica sempre uma porção de engaço por vindimar. É essa a cicuta que me atrai à cilada da minha identidade. Se digo tudo, traio os outros, se não digo, traio-me a mim.

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Perfil

14/07/2012

Serra. As tuas fragas são seiva

Bruta a correr-me nas artérias.

Linhas duras e incompletas

Repletas

De espinhos coroados de misérias.

Do topo do espinhaço da ventura,

Calhaus rolados de amargura

Lançam-se à sua rudeza intransigente

E caem na fúria da torrente

Que não se cansa

De se procurar

E, sem nunca se encontrar,

Nunca se alcança.