Archive for Junho, 2011

h1

«Versos de Uma Vida»

12/06/2011

Palavras que deixei ao Poeta popular monchiquense José Gomes Bartolomeu, na apresentação do livro «Versos de Uma Vida», uma edição conjunta entre  a Junta de Freguesia de Monchique e a Associação Cultural Memo, no passado dia 2 de Junho de 2011.

Meus amigos;

Que melhor dia para dignificar a nossa vila de Monchique que este em que se juntam, numa só voz, os cânticos à explosão de vida a escorrer nas paredes lisas da Natureza renovada, se perspectiva o sucesso das colheitas no final do Verão e se evoca a subida aos Céus de um Mestre Divino, que foi tão humano como nós, nos sentimentos e nas cicatrizes? Que melhor método para fazê-lo, senão através da Poesia, a única arma de criação de amor e de esperança capaz de misturar no mesmo cálix e na medida certa o sagrado e o profano?

Não me envergonho da paixão com que vivo estes dias. Sabe Deus, e, a partir de hoje, todos vós aqui reunidos nesta sala, a admiração que sinto pelos poetas populares. Especialmente os da nossa terra. Com a casaca do intelecto apertada, perde-se a vida à procura de um sentido, de um receituário de pensamentos e acções que respondam às ânsias legítimas de quem só procura cumprir-se da melhor forma no caminho da Felicidade. Árdua tarefa, quase sempre sem nenhuma fórmula ou ciência exacta a boiar no vazio das respostas. Mas basta um verso, um rifão de um destes homens como o que hoje tenho ao meu lado, para se perceber que a vida, simplificada e ao natural, arregaçada nas mangas da camisa da humildade humana é que é medularmente bela, alegre e descomplicada.

Neste país onde só já cabem doutores e engenheiros, quanto mais vezes leio e ouço os versos das vidas de todos os que, como José Gomes Bartolomeu, cantam a pureza pura dos sentimentos, mais me convenço de que são ainda os poetas quem mais sabe exprimir a nossa identidade telúrica e humana. Talvez sejam eles, ainda, os venturosos guardiães da autenticidade das forças da natureza e da sintonização perfeita com a necessidade de preservação de quem lhes lê os versos. Nos poetas populares tudo é espontâneo, livre, desprendido de pretensões que não sejam as de reviver o fundo pessoal, particular e interior das emoções quotidianas que nos animam o coração e os sentidos.

Se a poesia é, como disse Vitorino Nemésio, o «real autêntico absoluto», podemos afirmar que os «Versos de Uma Vida», de José Gomes Bartolomeu, desvelam horizontes em que a preservação da nossa identidade e genuinidade serranas se observam em poemas que tanto juntam aspectos meditativos com aspectos lúdicos, intelecto e intuição, considerações pessoais e gerais. (Na obra, autor dedica poemas que vão desde as faces particulares da vida, passando pelos afectos humanos e problemas sociais, até às  forças dos elementos e às Leis que regem o funcionamento da Natureza).

Hoje, apetece-me dizer que a poesia, dentro deste «poema geológico» que, em si, é a Serra de Monchique, é um estado de alma tão repetido que todos nós integramos um povo de poetas. Seja Poesia popular ou erudita, em glosas ou sonetos, é nela que não sei que razões obscuras dos sentidos e dos sentimentos humanos se decantam e se fundem nas formas literárias do que temos de mais límpido, autêntico e específico.

Por isso, em jeito de agradecimento e batendo em retirada, ao senhor José Gomes Bartolomeu, também eu dedico uns versos:

José Gomes Bartolomeu

Destino sinuoso desenhado em linhas rectas,

A quem um verso inato concedeu

O dom de erguer o homem à grandeza dos Poetas.

Fotografia: Associação Cultural Memo

Anúncios