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Agradecimento

02/01/2014

Ainda com os nervos em fogo de artifício. O que, dadas as últimas migalhas de mais trezentas e sessenta e cinco fatias de esperança renovada, dá uma farpela adequada ao momento. Escrevi ontem mesmo que, à excepção dos livros que leio, sou uma pessoa desinteressantíssima. Mas o que devia ter dito é que, à excepção dos amigos que tenho, sou uma pessoa desinteressantíssima. Herdei nos cromossomas a capacidade inata de fazer do reconhecimento pelo que nos é dado uma reação instintiva do coração e não uma regra passiva da boa educação. Por isso, cá estou a agradecer sentidamente a largueza de horizontes de todas as palavras, gestos e silêncios de ternura e generosidade que me foram concedidos durante o dia de ontem. Sei que a mediocridade das minhas frustrações, a crueza da minha sinceridade, o arame farpado dos meus medos, a intransigência da minha solidão nem sempre me têm tornado digno portador do respeito e carinho que me têm outorgado. Enfim… defeitos de fabrico que se avivam e se esbatem com o andar do prazo de validade. Porém, tenho plena consciência da minha boa fortuna em estar rodeado de pessoas junto de quem, perante a grandeza da sua presença, me apetece ajoelhar e de que o melhor do interior de nós está sempre no que fazemos para fora de nós.
Não vou repetir o estafado circunlóquio de final de ano, a desejar, a torto e a direto, boas entradas no tempo. O que hoje acaba, amanhã recomeça e nada deixará de ser como é. O velho ano está gasto e não deixa saudades, não tanto pelo que tive e perdi, mas pelo que me tirou sem me ter dado, e que é, como se sabe, um dos géneros mais terríveis de inquietação. Um anseio inconsolável por não sei bem o quê a que os alemães sabiamente nomearam “sehnsucht”. Ao longo de trinta e um anos, tenho-me confrontado com todas as perguntas que um homem deve fazer a si próprio e só tenho recebido a resposta de novas perguntas. Em apreço pela verdade, e no domínio dessa entidade a que chamam de Felicidade e me parece ser uma doença boa que só acontece aos outros, o melhor é fazer como o Horacio Oliveira, no Rayuela, do Cortázar: andar sem a procurar, mas sabendo que ando para a encontrar.

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