Posts Tagged ‘fundo’

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Trinta

30/12/2012

Dia fatídico acontecido.

Tão íntimo e tão meu,

Que sem saber que me deu,

Ocorreu eu ter nascido.

Dia de sol nas lonjuras,

Mas de brilho frio, desagasalhado,

E o calor chega apagado

Ao fundo das minhas amarguras.

Dia de ter nas folhas

A seiva verde da raiz,

Mas que a vida, no toco das escolhas,

Nunca quis.

Um dia mais de desenganos

Correndo na andança

Do tempo de ser

Há trinta anos

Uma criança

Que não sabe crescer.

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Pergunta ao mar

18/11/2012

Aqui, entre mim e o mar,
Um búzio a ressoar
O abismo azul duma pergunta.
Sem ondas de calmaria,
Em que outro lago caberia
Tanta lágrima junta?
Nesta proa rochosa da costa
O silêncio mergulha fundo.
O horizonte traz a resposta
Tão triste como eu e como o Mundo.

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Rocha Negra

18/06/2012

A Rocha Negra é uma das mais belas tragédias telúricas de onde se pode contemplar o buliçoso litoral algarvio. Vista do sul, a apascentar rebanhos de carneiros num agitado e viçoso pasto salgado e cor de esmeralda, emproada na sua dureza fuliginosa, parece sabiamente separada da desoladora paisagem urbana circundante. Vestígio inapagável de vulcanismo na região, estéril, inefável e agressiva, as ondas não lhe aleijam os pés, o sal não lhe abre gretas na tez parda, as brisas nebulosas não lhe ofuscam as vistas e o homem não lhe alcança a verdadeira grandeza do âmago senão a partir mar, embarcado numa casca de noz. Nos mais de 70 milhões de anos da sua existência geológica, e nos 200 mil de homo sapiens, nenhum dos Judas que venderam cada pedaço de praia ao mafarrico, deitando as sementes do cimento armado no chão das figueiras que mandaram cortar para não pendurarem, depois, os remorsos da traição à terra, lhe concedeu a honra devida. Ou a louvá-la, cantando-lhe loas, ou, à falta de figueiras, a beatificá-la, atirando-se dos píncaros deste ermo e a estatelar-se no fundo do abismo.