Archive for Maio, 2013

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Menino coração

16/05/2013

Tem dois lados, o meu coração,
Duas partes nem sempre iguais.
Quando sente perde a razão,
Pulsa na alma e pensa demais.

O meu coração é fúria meiga,
É multidão e às vezes um ermo,
É côdea dura e é de manteiga,
É frio e derrete, não tem meio termo.

Dentro de mim trabalha um motor,
Bate no peito sempre a sonhar.
Batida a batida é um sonhador
O meu coração não pode parar.

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A propósito de uma mãe que me deu poesia

14/05/2013

Que mãe é esta, não a minha,
Que me segura pelos braços
E, seguindo os meus passos,
Me sorri e diz: “- caminha”?
Que voz é esta tão maternal,
Tão sonhada, tão real,
Que me acalma sem a ouvir?
Que mão é esta que me embala
E em cada silêncio me fala:
“- Estou aqui, podes dormir”?
Que próximos estamos, tão distantes.
Estando juntos, somos sozinhos.
Eu combatendo gigantes
E ela: “- já passou, são só moinhos”.

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Deformação

12/05/2013

Não sei medir a vida que me é dada.
O superficial toca-me sempre no fundo
E traz à tona a fundura levantada
Onde o que é grande me parece nada
E até o nada é grande e rotundo.
Na minha sina de pedra deformada
Chutada pelos pontapés do mundo,
Não existe dor tão inventada
Por ser tão real e doente.
Mesmo a ferida mais provisória
Tem uma razão contraditória
A doer permanentemente.
Valerá a pena a luta penitente?
Às perguntas que pergunto
Sobre o sentido do meu ser,
Respondo que sou um defunto
Que não sabe viver.

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Microconto: Carlos

10/05/2013

Carlos, hoje vi-te no moinho. Quando foi a última vez que estivemos assim, a menos de um metro um do outro, partilhando as mesmas moléculas de ar? Talvez há uns quinhentos anos. Continuas igual, Carlos. Os mesmos olhos de granito apagado, o mesmo cabelo seco de seara em restolho, estás magro como uma vassoura. Quando te apertei a mão e olhei para as nossas palmas unidas pelos dedos a subir e a descer em baloiço, vi os nossos pés. Nos teus, as botas de couro de sempre; nos meus, uns ténis da puma altamente sofisticados, com um peso equivalente a onze bolas de pingue-pongue. Será que tu pesas mais que os meus ténis de marca, Carlos? Estás um lingrinhas, Carlos. Tu tinhas uns pulmões de ferro, eras mais rápido que o space-shuttle, apesar de seres completamente impiedoso para com a bola. Mas tinhas fibra, Carlos. Agora os teus músculos mirraram, têm a espessura das mortalhas dos teus cigarros compulsivos.
Carlos, reparei que continuas metido contigo mesmo, que te recusas a sorrir. É impossível adivinhar quantos comboios de tristeza terão passado por cima de ti. A tua pele é um sarcófago selado a proteger o exterior das mãos-cheias de angústia que te vão explodindo por dentro. És uma espécie de Chernobyl do sofrimento, Carlos. Sei que tens aguentado montes de merdas. Disseste-me mais ou menos isso no preciso instante em que sacudiste as mãos como se o peso invisível do ar as queimasse, como se tentasses expulsar do teu corpo a unha negra do teu polegar direito.
Depois de me confessares que estás a receber o subsídio de desemprego, acrescentaste:
– Um gajo habitua-se a tudo.
Quando me perguntaste que cara era aquela que eu tinha, estive para dizer-te que estava chateado com o padre por me ter dito para não repetir a gracinha de ler com gestos contundentes as sagradas escrituras, que aquilo não era nenhuma homilia. Tu sabes, Carlos, conheces-me, eu tenho tornados nas mãos quando leio em voz alta. As palavras irradiam-me pelo sistema nervoso central até às vísceras. Eu não te disse isto, mas devia ter dito, Carlos. Talvez te conseguisse fazer sorrir uma única vez na vida. Talvez te pudesses rir de mim às gargalhadas! De como sou um egoísta, Carlos. De como sou fútil. De como o meu sofrimento insulta o teu por não ter razão de existir. De como a tua angústia dava para partir o Mar Mediterrâneo em dois, da mesma forma que cada um de nós seguiu a sua vida quando decidi estourar as economias de uma vida aos meus pais metido no meio de livros e tu decidiste ficar no meio da tua lassidão.
Desculpa lá, Carlos, meu amigo, príncipe da simplicidade, por ter-me esquecido que existias durante este tempo todo. “Quinhentos anos”, disseste tu, como se eu fosse o Adamastor.
Desculpa por não ter sido capaz de ter sido teu amigo. Por não estar aí, ao pé de ti, enquanto limpas os suores frios a garrafas de cerveja a ver se te consegues embebedar o mais que puderes. Não tens mulher, não tens filhos, não tens trabalho, não tens ninguém. Só te tens a ti, a vida obrigou-te à solidão. Quem é que pode censurar-te?
Sabes, Carlos, pensei em perguntar-te como é que tinhas arranjado essa unha negra no polegar direito. Mas, agora, já sei. E não me sinto nada feliz por isso. Foi por essa unha negra que eu, hoje, não sou mais um azarado da vida como tu.

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Mãe

05/05/2013

Mãe,
Quanto dos teus olhos está nos meus?
Quanto do teu amor por mim vem
De um amor só visto em Deus?

Mãe,
Deste-me ao mundo e ninguém
Sabe como me fizeste ser entre os seres.
Só eu sei o que te torna eleita entre as mulheres.

Mãe, trago o teu colo no meu colo
Enquanto brinco ao meu destino.
O tempo pode até ir de pólo a pólo,
Mas, ao teu colo, serei sempre menino.

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Microconto III: A Culpa é Tua

02/05/2013

No princípio é amargo, mas engoles. Acreditas que o que te está a acontecer é um tronco de tortura do qual sairás uma melhor pessoa. Não há razões para te afligires. És um rapaz acertado, nunca te preocupaste muito em estudar, sacaste umas notas maravilhosas na faculdade, que deixaram a marrona da turma a espumar de raiva, deste-te ao luxo de responder em branco às perguntas mais óbvias de entrevistas de trabalho em empresas cujos administradores faziam figas sobre o teu currículo. Simplesmente, preferiste voltar ao ground zero da tua infância.
As amigas da tua mãe dizem-lhe que, por teres um bom emprego, seres bem-educado, solto de vícios e estares presente em tudo o que é festas tradicionais, és o genro ideal. Mas as filhas, que até acham a tua mãe uma querida, estão mais preocupadas com os teus dentes encavalitados, com os teus pêlos como arame farpado nas pernas, com a tua ligeira falta de altura e de cu para encheres umas calças, com a tua calvície adivinhada na nuca. Nunca se verão a chamar-te “paizinho”. Estão-se a marimbar para o facto de seres um tipo pensante por teres lido Tolstoi. Elas nem sabem quem é Tolstoi.
Até que um dia, uma gorda bêbeda no bar que frequentas repara em ti e insiste em chamar-te pelo nome espanhol do treinador «guapo» de uma equipa de futebol. Munido de alguma auto-estima extraordinária, partes para todos os truques do engate junto das gajas mais giras, mas sem êxito. Ofereces prendas, estás presente nos momentos mais difíceis, disponibilizas-te para fazer o PowerPoint da defesa da tese de licenciatura. Nada. Continuas cem por cento a zeros.
– Só a mi gos! -assevera uma a quem te atiras de cabeça, a partir de uma declaração de amor adaptada de um poema do Almeida Garrett.
Começas a ser visto pelos teus amigos como o microondas, “o tipo que as aquece para eles, depois, comerem”. E, claro está, flipas completamente. Passas a viver do ar, ficas muito tempo parado debaixo do sol à espera da fotossíntese para, finalmente, conseguires pensar. Quando o fazes, trocas-te todo. Os nomes das pessoas. A geografia dos objectos. Viras a ordem das acções ao avesso. Chegas mesmo a colocar pasta de dentes no piaçaba e acordas no exacto instante em que as cerdas se aproximam da tua boca.
– Meu, o que é que se passa comigo?! – ralhas a ti próprio.
Normalmente, cobardolas como tu aliviam-se desse peso no peito com uma medida universal: 9 milímetros. Tu não. Deixas- te levar pelo mau feitio, deixas o bom menino que foste um dia ir-se embora de vez, ficas a achar que toda a gente te quer tramar. O mundo é um mau lugar para se viver. E a culpa disso é inteiramente tua.