Posts Tagged ‘Calor’

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Polaroid

17/09/2013

Uma barrela emotiva que me deixou como se tivesse acabado de vir de um campo de colmeias. Estávamos a salvo dos narizes bisbilhoteiros, a interlocutora era de confiança e o espaço tresandava apenas a silêncios e ao húmus expressivo onde tem medrado toda a nossa intimidade. E antes que a máscara desesperada de crispação e amargura que lhe apresentava me ficasse irremediavelmente inculcada na cara para todo o sempre, pondo em causa tudo quanto nos faz dignos do poder superlativo da amizade, deixei-a cair e a confissão quebrou-se como cristal no chão sensível das nossas ilusões:
– Sabe, o meu grande problema é que eu sou um romântico! – E como em tudo na vida, acabei sem saber se procedi bem ou mal. Parece, sim, que fiquei mais perto de mim mesmo e mais longe do alcance das minhas frustrações.
Não há como ocultá-lo. O verdadeiro fundo da nossa identidade revela-se no calor instantâneo dos pudores mais desinibidos. Ao cabo e ao resto, funcionam como a fotografia do cartão do cidadão: só temos uma hipótese de mostrar o que verdadeiramente somos. Na impossibilidade de lavar as mãos perante as consequências das palavras e dos gestos, ou ficamos bem, ou ficamos mal. Se ficamos bem, pois muito bem. Se ficamos mal, não nos resta outro remédio senão pedir desculpas sinceras a todos aqueles a quem diariamente apresentamos as veras da nossa identificação.

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Contemplação

05/08/2013

Espero pacientemente.
Mesmo que me não digas se vens.
É apenas porque sei que tens
A mesma razão intuída
No poder contraditório do amor.
Espero o tempo que for.
Porque até a paixão mais arrefecida
Tem escondida
Uma fonte secreta de calor.

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Querida solidão

04/07/2013

Envolvido num silêncio abafado – o resto do calor de cigarras que foi a tarde – vou assentando no caderno mais uma nuvem de inquietações reduzidas ao pó do verbo. Do mesmo modo que a poeira assenta nos caminhos, redefinindo-lhes a lonjura e a aridez depois da turbulência de uma rajada de vento ou do trânsito frenético das caravanas, também eu espero pelo final do dia para pôr em cursivo a poalha levantada na roda-viva dos meus dias. Uma noite prenhe de estímulos a tornar a vida mais explícita e mais inteligível aos meus olhos, já que aos olhos dos outros somos sempre uma imagem deformada por adivinhação, um rumor destemperado do nosso fundo. E é nestas horas de auto-observação meditativa que conto as demasias gastas com afinco em tudo a que entrego uma considerável parte de mim. E quanto desperdício, quantas gangas perniciosas encontro por arrumar nos contentores do absurdo. Travo lutas que não são minhas, combato moinhos dissimulados de gigantes, doem-me dores onde não cabem as medidas do meu corpo, venero mitos impossíveis, correspondo a paixões sem correspondência, espero milagres que não se concretizam, acredito em deuses que não existem. Enfim, um ror de insignificâncias falidas roubadas ao que realmente importa e onde procuro a minha própria significação. Mas não podia ser de outra forma. Se destas empresas não vier, um dia, uma revelação que me surpreenda a existência, é porque não fui digno dos seus dons ou porque lhes consenti sempre mais que aquilo que a vida me pedia.

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Sonho

28/03/2013

Na luz brilhando às rodelas
Soprava um vento Suão.
Eu podia estrelar a solidão
E ser inteiro às parcelas.
Os teus olhos eram janelas
Abertas ao calor da rua.
Olhando através delas
Eu era azul atrás da lua
E já não sabia se a vida
Era realmente vida
Ou a noite presumida
Entre a minha vida e a tua.

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Eflúvio

12/03/2013

Um caudal canta atrás de nós.
Um rio persegue a foz
Na música calma da Lua.
Há nela qualquer coisa que flutua…
Um tom limpo no ar líquido da voz
Igual ao desatar de nós
Correndo no respirar da tua
Quando somos a natureza a sós
E molhas beijos no meu rosto.
Como se eu fosse calor de estio
E tu a sede deste rio
Beijando as serras em Agosto.

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Trinta

30/12/2012

Dia fatídico acontecido.

Tão íntimo e tão meu,

Que sem saber que me deu,

Ocorreu eu ter nascido.

Dia de sol nas lonjuras,

Mas de brilho frio, desagasalhado,

E o calor chega apagado

Ao fundo das minhas amarguras.

Dia de ter nas folhas

A seiva verde da raiz,

Mas que a vida, no toco das escolhas,

Nunca quis.

Um dia mais de desenganos

Correndo na andança

Do tempo de ser

Há trinta anos

Uma criança

Que não sabe crescer.

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Fogo Preso

14/12/2012

Lume a escorrer nas labaredas,
Palpitações trilhadas a suor,
Tochas iluminando as veredas
Que o coração sabe de cor.

Queria fazê-lo eterno numa fogueira
Feita dum tempo de cimento
E ficaria a vida inteira
A ver arder o meu sofrimento.

O fogo lento que me queima
Tem o calor de um Prometeu.
Sou cepa humana onde teima
Brilhar um sol que escureceu.