Posts Tagged ‘Livros’

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Os meus livros

22/06/2013

Somos, realmente, aquilo que lemos. As estantes deste sarcófago que é o meu quarto são autênticos relicários onde está guardado aquilo que sou e até onde poderei vir a ser. São eles o epicentro dos meus transes, dos meus maiores arrebatamentos psíquicos e das minhas ousadias mais inquietas. Estarão para mim, no futuro, como as ruínas de hoje estão para as singularidades das civilizações antigas, mortas às mãos aterradoras das próprias perdições. Leio-os até à quase volatilização dos sentidos e à súbita sublimação consciente do entendimento. E são tantas as vezes em que só sinto o coração a bater nas têmporas e no peito graças às páginas que devoro como tremoços. Os livros são pilhas onde assentamos os pés da imaginação para nos fazer crescer o tamanho da alma. Tenho em mim todas as Dulcineias idealizadas, todos os Raskolnikov atormentados e todas as baleias indomáveis dos mares da liberdade. Sou de capa dura, mas estou cheio de ilustrações para crianças.

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Guadiana I

12/08/2012

Guadiana. Estes caudais fronteiriços lembram-me sempre separadores aquosos de grandes livros escritos a terra. De um lado, a caligrafia de Camões; do outro, a de Cervantes.

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Alicerces

31/07/2012

Não sei fazer versos por encomenda, mas foi com quanta honra e quanta lisonja podia empregar à nobreza da causa que me deixei adicionar a este projecto.

Quarenta e dois fotógrafos, quarenta e um escritores e eu fizeram coincidir o movimento estático das imagens com a eloquência polimorfa das palavras.

No final, resultou um livro onde fotografias e textos se ilustram mutuamente num reflexo transparente dos sonhos e da esperança de cada uma das crianças a quem a associação Acreditar acode diariamente.

A aquisição do livro significa um donativo de 5 euros para a construção da Casa Acreditar do Porto.

Apesar de ter assinado o poema com o qual contribuí para a publicação, não posso ficar-me sem render uma sincera homenagem e deixar um aprofundado agradecimento à Professora Ana Paula Almeida por me ter limpado do sarro da desinspiração e, pacientemente, ter ajudado a que os versos saltassem livres dessa prisão.

O livro estará, para já, apenas disponível on-line.

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100 anos de nascimento

30/01/2012

O centenário de Manuel do Nascimento, pródigo escritor neorrealista, também não foi esquecido pela biblioteca escolar da Escola EB 2.3  de Monchique.

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História Universal da Infâmia – último capítulo

10/02/2011

Paulo Coelho é um escritor [?] muito, muito original nos títulos que escolhe para as suas obras! Jorge Luís Borges teria, neste plágio pedante, um motivo extraordinário para dar continuidade à «História Universal da Infâmia».

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Com os [Bons] livros também se brinca

19/01/2011
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Los 33

14/10/2010

Esperei, com a paciência de 33 Jobs, pelo término das operações de resgate dos mineiros encurralados no deserto de Atacama para poder finalmente lavrar as palavras que me apetecem dizer sobre o assunto.

Solidário com as atribulações das vidas de cada um daqueles 33 homens, desesperadamente passadas nas profundezas da escuridão, não foi a primeira vez que me senti mineiro. Nem a segunda.

Na primeira, a descida de umas dezenas de metros nas Minas de Neves Corvo, durante uma visita de estudo da primária, apenas me fez perceber que há homens que vivem como as toupeiras. Em busca de tesouros guardados debaixo das pedras, entram nas entranhas da terra através roscas de artérias helicoidais e transformam a luz leve do dia na densidade do breu. Noite cerrada.

A segunda vez que me senti mineiro foi quando li Manuel do Nascimento, Engenheiro de Minas, escritor da minha terra e sofredor da mesma agónica opressão que tolhia de negrura o quotidiano dos mineiros de então. Aquilo que escreveu num conto chamado “Nada de Importância“, em o ” O Último Espectáculo“, é uma súmula dos últimos dois meses de vida dentro do tutano do deserto chileno. Basta substituir “quatro” por trinta e três, e “aldeia” por mundo:

« Levantei-me e fui à porta. O vulto de um homem esperava-me à distância.

– Que há?

– Abateu a galeria 5.

– Toda?

– Não, senhor engenheiro.

– Estava lá alguém?

– Quatro [33] homens.

– E então?

– Ficaram lá todos.

[…]

Era preciso chegar. Outros homens corriam também. Toda a aldeia [Mundo] se levantaria ao saber do desabamento.»

Ontem, voltei a sentir-me mineiro, multiplicado por 33. E chileno, também. Nos ossos, nos nervos, na carne, na pele e nas pilosidades daqueles homens. Na intemporalidade, universalidade, pertinência e sagacidade da pena de Manuel do Nascimento.