Posts Tagged ‘políticos’

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Patriotismo de lapela

07/11/2012

Fixada na lapela dos paletós dos homens de Estado, num brilho baço, a bandeira nacional já nem portuguesa é. É impossível olhá-la sem levantar muros à volta da esperança. A mim, que sempre a concebi desfraldada nos mais altos mastros de uma identidade com oitocentos anos de história, cada alfinete ardilosamente cravado nos casacos destes fingidos patriotas, dói-me como um espinho espetado no coração de um boneco de vodu com os recortes do mapa de Portugal no perfil.

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Continuação

07/10/2012

Continua o entremez político nas salas públicas locais. Infelizmente, é ao nível das soleiras dos currais que a grande farsa se desenrola. Atentam contra a dignidade da inteligência, professam o nome sagrado do povo em vão, entregam, à noite, com um beijo traiçoeiro, aqueles a quem juraram servir de manhã, mentem, airosa e desassombradamente, pulando todos os muros à volta da decência. Um sal insípido de convicções arbitrárias que perverte a terra mais salobra traficado a qualquer preço, comprado sem regateio pelos venais fregueses das redes sociais.

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As escalas da política

28/09/2012

A política argamassada nas ruínas coletivas locais. Os mesmos truques da escola nacional de ilusionismo narcísico, os mesmos números acrobáticos decalcados aos de São Bento, reproduzidos nas lonas e nos trapézios domésticos. Aqui, como lá, a confraria pública parece uma pirotecnia lúdica prontinha a mandar tudo pelos ares. Salvo digníssimas excepções – e honra lhes seja – cada fogueteiro manuseia a palavra como se fosse pólvora. Escolhem as canas da tartufice a preceito, metem rastilho encerado em ironias fátuas, escorvam delicadamente a pólvora nos invólucros do cinismo, empapuçam as cabeças do foguete com as mais variadas cores retóricas, e, depois, quando a girândola das demagogias larga os foguetes de lágrimas, ficam deslumbrados, de olhos fixos na explosão a incendiar os céus mediáticos, esquecidos de que o arco-íris da incandescência se mantém no ar apenas durante o tempo que eles se demoram na solene investidura de mordomos da festa.

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O préstimo cívico da poesia

05/09/2012

Nunca ouviu falar de Gide, de Rilke, de Goethe, de Eliot, de Poe, de Whitman, de Pound ou de Szymborska. Conhece apenas excertos dos sonetos de Camões citados a martelo e umas estrofes obscenas de Bocage que apanhou de ouvido. Em Pessoa, fica-se por aqueles dois versos do Mar Português que, paradoxalmente, lhe apoucam as veras da alma. É político. Não gosta de poesia. Se gostasse, não tinha tão maus fígados, tão má ortografia e tão maus sofismas na retórica.

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Políticos

07/05/2012

Os políticos. Dão sempre com a verruma no prego. Falam a ouvir-se, como se tivessem dentro dos próprios umbigos o conduto auditivo de quem lhes delega as rédeas provisórias do poder. Roubam à lucidez da nossa esperança todos os argumentos de humanidade possíveis. Acreditam de modo tão pio na gratuitidade pérfida das inautenticidades eloquentemente professadas, que julgam estar a caminhar sobre águas marinhas quando cruzam canteiros de batatas.