Posts Tagged ‘Tempo’

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Mergulho

10/07/2013

Primeiro mergulho anual no mar português de Portugal. Anestesiado pela onda de calor e enrolado pelas outras, as de água e sal, saí daquela cebola líquida constituída por camadas infinitas de pureza e de vida como se tivesse sido submetido a um transplante. Um transplante de um órgão sensível capaz de continuar a pulsar lusitanidade até ao fim do tempo.

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O tempo é uma vaga noção indefinida

20/06/2013

Meto dó a desandar na roleta do meu próprio descalabro. Enquanto vou tirando as pétalas ao malmequer da vida, aguardo, com uma certa inflação de desespero e de impaciência, por um indeterminado não sei quê, um golpe de asa, uma vaza inédita que me valha pela eternidade. Hoje, por distracção, tentei enganar o vagar do tempo adiantando as agulhas ao relógio, fiado na crença de que quando esse momento acontecesse, a pressa do que havia de ser seria já o que tinha sido. O futuro seria o presente antecipado e, no exacto período da sua ocorrência, o presente teria sido convertido em passado. Tenho uma temerosa dificuldade em sincronizar-me com os metrónomos quotidianos. Hipnotizado pelo pêndulo da ilusão, só consigo compreender a actualidade das coisas fora do seu tempo: ou por antecipação, ou por recordação. A significação das minhas acções cumpre-se na estratosfera onírica do desejo ou nos desaterros melancólicos da lembrança.

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Assincronia

22/04/2013

Ando de tal maneira dessincronizado com o mundo, que em vez de medir o tempo em horas, meço-o em angústia.

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Cronograma

17/03/2013

É bonita a corrida da Juventude,
Quando a única virtude
Que lhe reconhecemos
É essa eternidade fingida
De não saber que envelhecemos.
Só depois, à hora da partida,
Lhe damos a efémera medida.
Os caminhos são mais estreitos,
Os dias demasiado pequenos.
Nos corpos já não tão perfeitos,
O tempo é somado por menos.

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Puxando o carro

17/10/2012

Que balsâmico seria se, depois de lavadas as ferramentas e arrumadas as mataduras diárias a um canto, eu me metesse pelos espinhaços ossudos desta serra a cabo e, sedimentado em cada pedra, abrolhado em cada arbusto e integrado no instinto selvagem de cada criatura animal, medisse com o estalão dos meus próprios passos até que rasos horizontes se estende a minha coutada de solidão. Mas não. A vida concreta é mais forte que as amarras das paixões abstractas. Os mapas têm que orientar, as actas têm que contar, o céu tem que chover, os ribeiros têm que inundar, os mortos têm que morrer, os vivos têm que viver. Vistos à luz mortiça da rotina, o quotidiano parece inútil e o trabalho um desperdício, uma escravidão a forças tirânicas alheias às nossas ambições. E como pegadas desenhadas na lama dos dias, apenas se sabe de quem trilhou o caminho aquilo que diz o cardado das botas. Para mim, nem isso quero! Quero que a assinatura dos meus actos tenha o registo neutral das caligrafias ruins e a precariedade do giz nas ardósias. Passar pela vida de forma tão ignota, tão anónima e tão clandestina que nem eu próprio dê conta da minha existência.

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Apocalíptico

07/10/2012

Tínhamos um Letes como testemunha
E um Éden que florescia num sorriso.
Éramos costela, carne e unha
De um sonho de Deus no Paraíso.
Mas quando cada um de nós supunha
Que havia tempo de sobra
No cimento eterno dessa obra
Erguida nas paredes da manhã,
Saiu do entulho a serpente
Cuspindo casca e semente.
E nós, discretamente, arrotámos maçã.

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A poesia

26/08/2012

Chego ao final de cada poema com a pavorosa sensação de ser o último. De que não existe mais húmus imaginativo onde a voz da inspiração possa firmar as raízes. E fico-me na confrangedora desolação de homem que não sabe renunciar aos arroubos da mulher que o intruja.  Olho, por entre as frestas do desencantamento, a paisagem circunstante e vejo que há sombras e há luz, há pedras e há mares, há desertos e há rios, há chavascais e há flores. A poesia, como todas as naturezas espontâneas, virá, então, a seu tempo: à hora mais livre, mais pura e menos pensada.