Archive for Setembro, 2012

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Requerimento

28/09/2012

Pedi à musa que viesse,
Que não me deixasse calado.
Que o poema acontecesse,
Nas prateleiras de uma quermesse
Em honra de um santo excomungado.

Pedi-lhe, numa prece, humildemente,
A voz inspirada da canção.
Uma centelha, um elixir, uma semente,
Um milagre da transformação:
Uma seara dourada e ardente
Que dos versos desse pão.

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As escalas da política

28/09/2012

A política argamassada nas ruínas coletivas locais. Os mesmos truques da escola nacional de ilusionismo narcísico, os mesmos números acrobáticos decalcados aos de São Bento, reproduzidos nas lonas e nos trapézios domésticos. Aqui, como lá, a confraria pública parece uma pirotecnia lúdica prontinha a mandar tudo pelos ares. Salvo digníssimas excepções – e honra lhes seja – cada fogueteiro manuseia a palavra como se fosse pólvora. Escolhem as canas da tartufice a preceito, metem rastilho encerado em ironias fátuas, escorvam delicadamente a pólvora nos invólucros do cinismo, empapuçam as cabeças do foguete com as mais variadas cores retóricas, e, depois, quando a girândola das demagogias larga os foguetes de lágrimas, ficam deslumbrados, de olhos fixos na explosão a incendiar os céus mediáticos, esquecidos de que o arco-íris da incandescência se mantém no ar apenas durante o tempo que eles se demoram na solene investidura de mordomos da festa.

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O outro nome da imaginação

26/09/2012

Primeiro contacto do sobrinho com um dos vultos consagrados da literatura pátria, através do folheio delicado da sua fotobiografia.
– Quem é este senhor?
– É o senhor Adolfo. Mas gostava que lhe chamassem Miguel.
– Eu chamo-me António, mas gostava de me chamar Francisco.
E ficou a ressoar-me na alma a firme sensação de que a infância é o mais puro, mais fértil e mais asado dos pseudónimos com que a imaginação assina o destino de cada criatura.

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Desilusão

26/09/2012

Queria, agora, ao abrir a porta,

Que não me entrasse em casa um inverno.

Raios de um sol escrito a letra-morta

Apagados na chuva do caderno.

 

Queria ver a escorrer na rua,

Lavado no barro dum ribeiro,

O sorriso atrás do nevoeiro

Que ontem vi na Lua.

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Conflito

24/09/2012

Sou eu o refém dos pensamentos

Contraditórios e quezilentos

Que me pulsam nas fronteiras.

Ataco e contra-ataco nas trincheiras

De mim, d’alguém, daqui e d’além.

Sou, para o mal e para o bem,

Desertor de todas as fileiras

E o meu inimigo mais hostil.

Pelejando em terra de ninguém,

Sou uma guerra civil.

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Indignação

16/09/2012

Horas custosas as vividas nos metrónomos sociais do país. A Esperança hipotecada pela traição daqueles a quem diligentemente lha outorgamos. Farto de comer e calar, o povo juntou-se e, dando voz atormentada à consciência colectiva, num caudal de indignação e de revolta, galgou as margens passivas da resignação em vários lugares da pátria. Gritou, protestou, esbracejou, imprecou e respondeu com valores de democracia à perversão das equações econométricas vendidas pela ortodoxia neoliberal como hóstias de salvação. O seno e o cosseno das vontades individuais somadas a medir os mais de oitocentos anos de preservação da nossa identidade soberana. Sobre os cortejos de ontem, que as actas e gráficos existenciais  futuros não digam apenas isto: “o povo varreu a sua testada, arruou a indignação, recolheu à serenidade do lar e, na segunda-feira, foi tratar da vida.”

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Pergunta

11/09/2012

Quem sabe o que há dentro das ondas?

Se no eco salgado dessas vagas

Há gritos de homens e o silêncio de fragas

Paradas em danças redondas?

 

Quem diz que os rios não escrevem nos pauis?

Que o mar visto assim ao natural,

Não é uma peça de enxoval

Feita de retalhos verdes e azuis?

 

Quem conhece os versos em profundidade?

Quem neles mergulha e perde o pé

Fazendo fé que a poesia é

Navegar sem sair do lugar no lago da eternidade?