Archive for the ‘Psicologia dos Calhaus’ Category

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Quebra-cabeças

17/09/2013

O meu grande quebra-cabeças de poeta: ser tão nada à míngua excessiva de ser tanto.

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Mensagem

06/08/2013

Deixar andar o tempo.
Contá-lo é juntar desperdícios.
Sem dar atenção aos indícios,
Vivo o pêndulo de cada instante
Como se estivesse diante
De mim e de Ti
Num baloiço de negação.
A perguntar se estavas aí
E a fingir que não ouvi
O teu silêncio dizer “não”!

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Microconto V: Bomba D

21/07/2013

Depois de muito tempo à deriva numa relação de gravidade zero, sentes, finalmente, o conforto doloroso da terra firme. Acabaste de aterrar no planeta solidão.
O mundo é um lugar difícil para ti. Provoca-te o prurido de uma blusa de lã: não te serve. Dá-te as náuseas de um ovo podre: passou da validade. Perdes o equilíbrio: as tuas perspectivas de felicidade coxeiam. Sentes falta de ar: os teus dons mais instintivos asfixiam num poço penitente de angústias.
Cortaste o cabelo. Perdeste dez quilos numa semana. Os teus amigos dizem, animados:
– Pareces um puto. Estás mais magro. Estás em forma. – Para eles, é tudo fácil. Acham que viraste a página. Mas dentro de ti ressona um velho gordo algaliado, bonacheirão, sem nenhuma vontade de mexer uma palha.
Podias fazer o que toda a gente faz: desatar em queixas, enterrar umas notas na conta de um psiquiatra que te doma o leão da revolta com o chicote da fluoxetina, deixar-te levar por ondas alternativas que fingem que tu és um tipo zen e despreocupado a quem não interessam as merdas fúteis que dão prazer a qualquer pessoa. Mas sabes que as ideias que trazes agarradas à tua cabeça são a coroa de espinhos que ninguém quer usar. Por isso, ouves metade dos teus amigos a lamentar-se de coisas sem assunto sem abrires a boca. Calas-te. Não dizes nada. Quem te compreenderá? Enquanto houver uma criança malnutrida em África, podes agarrar-te ao consolo da tristeza relativa. Há sempre alguém pior do que tu.
Na verdade, podias tentar arranjar mil e uma desculpas para a cama de pregos que estás a atravessar: foi o teu trabalho, foi o serviço cívico na associação de acompanhamento de idosos, foi a tua tese de mestrado bloqueada por um orientador que te ignorou completamente, foi a doença da tua mãe, que te pôs mais louco a ti do que a ela, foram as derrotas sucessivas do teu clube ao minuto 92, foi o filho da puta do aparelho nos dentes que te soterrou no piso menos 3 da autoestima.
Simplesmente, tu não és um desses tipos que se esfarrapam nas desculpas mais idiotas e descabidas. Tu páras e consegues pensar. Há uma Hiroshima e uma Nagasaki prestes a rebentar contigo e tu conheces de ciência exacta a razão do teu sofrimento:
Acreditaste, como um devoto de Fátima, numa certa ideia de amor durante demasiado tempo. Ensanguentaste os joelhos da tua ilusão em voltas intermináveis a esse santuário, esperando pelo milagre. Encarceraste todas as tuas células imperfeitas numa ideia patética e só tua de perfeição. Só que essa perfeição e esse amor que, em vão, procuraste, nunca aconteceram. Tens a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, a Bomba D explodirá. Por isso, começas de imediato a apanhar os destroços: durante os próximos tempos dedicas-te exclusivamente a ti. Ainda sabes o que isso é?

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O poder da palavra

14/07/2013

Que desgraça seríamos nós sem as palavras. Mesmo aquelas que não passam de uma convencional transcrição gráfica das emoções e deixam perder uma grande parte da essência daquilo que sentimos. Todas elas têm implícitas as dimensões fundamentais de um volume, de um tamanho e de uma distância. Não são os objectos, os factos ou os sentimentos e não os substituem na linguagem dos sentidos, mas são aquilo que mais nos aproxima das coisas que nomeiam. Por exemplo: dizemos mar e mergulhamos; dizemos céu e voamos; dizemos terra e caminhamos. Falamos e construímos a largueza, a fundura e a altitude que trazemos explicitadas nas paisagens dos sonhos.

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Remorso

05/07/2013

Foi tudo simples e disperso:
Disse um verso
E pensei que amanhecia.
Mas as palavras vinham nubladas.
Toldadas
Por um sol que não nascia.
Não houve brisas nem poesia
E o dia foi um ar abafado
Por ter falado
Sem saber o que dizia.

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Tarde de mais

01/07/2013

São as horas que são, e, para mim, são tantas da noite. De uma noite de velhice, entenda-se, cujo meio-dia ainda agora se ouviu soar nos campanários do destino. Desencontrado no fuso horário da vida, vivo expatriado na minha própria pele. Quando o sol brilha no lugar onde estou, já se pôs no lugar de onde venho. E não sei se os bocejos enfastiados que vou soprando nestas anotações diárias são por estar ainda a despertar ou por estar prestes a dormir. É como se chegasse atrasado a tudo. Ao que vivi, ao que não vivi e podia ter vivido e ao que ainda tenho para viver, mas que, apesar de todos os escrúpulos, de todos os desvelos e de todos os estoiros do coração, nunca será significativamente meu.

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Chuva onírica

30/06/2013

Ao ridículo absurdo a que podem chegar certas más consciências demolidas. Esta tarde, enquanto um colorido cacho de balões subia a escadaria do céu, vi-me a perder lucidamente o juízo e a desejar sofregamente amarrar a minha vida àquele cordel de liberdade alada. Deixar que também ela fosse subindo, subindo, subindo, e que a plenitude estratosférica a tornasse menos pesada, menos negra, menos presa, menos sofrida. Que, ao cabo e ao resto, convertida em estado onírico, o deixasse de ser, por fim. Que ficasse retida numa nuvem de felicidade imerecida, impensada, indefinida, e fizesse chover sobre a superfície da Terra todos os sonhos que trago guardados dentro de mim.