Posts Tagged ‘Monchique’

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A vida cívica

25/08/2013

Nova assembleia cívica até desoras. E o que sobrou da minha participação – se é que se pode chamar participação à total falta de presença cumpliciadora – foi um poema arrancado a ferros, anotado no papel ainda com salitre e grãos de areia nos versos, horas depois de mais uma tarde a encarar os feitiços líricos do mar. O que sou a menos socialmente sou a mais naturalmente. O melhor que tenho para dar no vínculo de cidadão a tempo inteiro com que fui investido pelos imperativos da consciência vem, quando vem, na forma banal e ridícula de versos, na contumácia do silêncio, ou no anonimato violentado da minha solidão. Existir, mas numa discrição renovada diariamente até à quase inexistência.
De modo que quando o corifeu do concílio deu por encerrados os trabalhos, desembainhei as pernas e meti a correr pela escuridão das ruas de regresso a um lugar familiar onde pudesse estar a salvo da crispação interna em que me vou ratando à traição. Sou como aqueles bichos do mato que, depois de muitas horas em cativeiro, se esgueiram à primeira oportunidade pela fresta mais estreita de liberdade que possam ver aberta.

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As casas abandonadas da vila

14/08/2013

As casas abandonadas da vila lembram-me retratos antigos. Olho para elas a apagar-se, gastas nos cantos, os vidros baços, os telhados cabisbaixos, e consigo ver lá dentro vidas, gente, pais, mães, avós lavando a loiça, crianças decorando a tabuada, barulhos, brilhos, movimento. Fantasmas de cimento sustendo a respiração, à espera que, por fim, o esquecimento os mergulhe de vez na paisagem precária de nós mesmos. Ruínas tímidas desalojadas do Futuro quando lhes demolimos o Passado.

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Monchique, 30 de Maio de 2013

06/06/2013

Ainda a reencontrar-me depois da espécie de mau-olhado ao contrário que significou a ida e volta a um dos cantos do mundo. Preciso disto para me sentir em conformidade comigo, para fazer coincidir a medida do espírito com a medida dos ossos. Na pátria local ou na pátria global, cada trajecto por diferentes paisagens, cada subida a monumentos esquecidos, cada diálogo com pronúncias estrangeiras, cada prova de trajes exóticos ou comidas estranhas, tem o sabor do brilho da vida. Parto à procura da essência das coisas e regresso mais essencial. É como se fosse engolido pela geografia dos sentidos e, depois das enzimas da terra me devorarem os acessórios fúteis do quotidiano, fosse cuspido em caroço em direcção ao chão nativo. Pareço um parafuso. Dou voltas ao país e ao mundo e acabo sempre por rodar em torno do centro da minha geodesia original: Monchique.

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De Lisboa até à Lua

18/04/2013

A reter panoramas retentivos no Miradouro da Graça, a desfiar as barbas da História na paz branda do Tejo, em Belém, a deixar o relógio desandar em horas devolutas à sombra luminosa do jardim da Gulbenkian, ou, simplesmente, a receber calhamaços de instrução no auditório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, uma visita a Lisboa, para mim, é sempre uma correcção magnética à inexorável declinação dos rumos provincianos que vou desenhando na pátria. Vou e volto, e quando me perguntam de onde venho, apenas me apetece responder:
– Da Lua.

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A minha Picota

19/11/2012

Ontem, o mar, hoje, a montanha. Desanimado, meti-me pelos cerros acima até chegar ao topo da Picota, onde alívio agora a minha aflição desiludida seguindo religiosamente a prescrição de uma dieta geológica à base de micas e feldspatos. Perdido como um cão apavorado pelo rebentamento da pólvora, tinha de ser aqui, no cimo desta penedia nua, no centro de uma pobreza cristalina, que eu podia encontrar-me na tradução física exterior dos meus calvários interiores. Uma alma solitária, atribulada, purulenta e em carne viva, submissa à realeza de uma mole titânica, também ela descarnada de revestimentos, exercendo um domínio imperial sobre a restante paisagem estendida a seus pés. Lado a lado, um vulcão de lava eruptiva presumida e um vulcão de lava emotiva reprimida a compreenderem-se nos silêncios gretados das pedras. Exageradamente, tanto tenho ampliado com a lupa dos sentidos a rudeza inexpugnável destes rochedos sieníticos, que dou por mim a desejar ser um aditamento mineral da sua fácies, apenas posto a nu nas areias estéreis de uns míseros poemas cantados às erosões da vida.
Fez-se tarde. Um hálito frio de nortada lambe tudo e barbeia-me a cara em restolho. Lá em baixo, na vila, charutos de fumo acendem-se sobre os telhados, esbatendo a nitidez às pregas da paisagem. Chama-me a lareira doméstica. Deixo de ser espectador enfeudado à Natureza e desço de novo até mim; até esse vale de lágrimas onde serei outra vez serras e serras de tristeza agreste até perder de vista.

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Bucolismo rude

14/11/2012

– Aquele poemazinho sobre as vistas do talefe da Fóia, hein!? Aquilo é que é bucolismo!

– Pois, por mim, é tudo isso que ele não é! – protestei eu, inconformado.

Nunca, por nada, fui bucólico, idílico, dado a harmonias campestres que só através do génio de um Eça me cabem nos mapas literários e vivenciais. Um chão que só é capaz de dar leiras de couves, sem gangrenas, que se não revela em carne e osso, com as chagas avivadas pelo sal agreste dos elementos, não me atrai.
A mando do ofício, simplifico a realidade em planisférios, dou-lhe escalas e pormenores, invento fronteiras. Convenções euclidianas logo a seguir transpostas pela letra redonda da poesia que, nos seus espantos, nas suas angústias, nas suas fantasias, tudo concede e imortaliza como um Globo em permanente rotação ao redor de um eixo de inquietações, e em revolução em torno dos Sóis do amor e da liberdade. É o geógrafo a levantar paredes e o arremedo de poeta a derrubá-las. Dois mundos baralhados numa  comunhão fraterna. A ambos, une-os a ideia universal de que o Homem não o é sem o rasgo definidor do espaço. O que se vê e o que se intui. O espaço que o enquadrou na superfície do passado e o espaço que o há-de enquadrar nos lugares futuros.
É por isso que, ao arregalar os olhos nestas paisagens nativas, se me insinua na retina a condenação telúrica de deuses implacáveis a impor-se a calmarias luxuriantes. Por mim, toda a serrania é violência. Uma violência prodigiosa a dar corda aos sentidos.
Olhem, com olhos quiromantes, a fundura dos abismos engolindo a ostentação sublimada e vejam ao menos as forças ciclópicas das mãos que dobraram o chão. Ouçam o sôfrego protesto torrencial dos regatos a cantarem tragédias. Sintam tremer o chouto gigantesco de homens anónimos galgando degrau a degrau a escadaria de socalcos no volume dilatado das encostas. Não! Tudo aqui é violência furtiva, virginal, bela. Um braço de ferro em equilíbrio; um corpo a corpo pegado entre Homem e Natureza feito pela mão da raiva, pelo músculo do sofrimento, pelo nervo da erosão e pela seiva da pobreza a troco de papas de fome e garrochos de medronho. Para contemplar semelhantes paisagens na sua fatídica inteireza e significação, é preciso que o peito não expluda a dimensioná-las no espírito. E nem todos trazemos calos vivos na lembrança, que nos permitam sentir tamanha dureza por baixo de tão pacificada beleza.

Fotografia: Laura Mexia

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Erupção emotiva

13/11/2012

Explicava-lhe que não, que todas as hipóteses de existir um vulcão adormecido no cocuruto da Picota eram meras assombrações especulativas, apenas explicadas à luz das formulações teoréticas da imaginação, enquanto deixava uma réstia de positivismo lírico enfrentar a colina de soslaio, a desejar que aquela borbulha geológica rebentasse de uma vez por todas e trouxesse à tona uma nova rocha-mãe, natural, feminina, seca, disponível, de saias subidas, sem espartilhos a apertar-lhe a silhueta, onde pudesse afundar com maior firmeza as raízes da esperança.