Archive for the ‘Meteorização Mental’ Category

h1

Liberdade poética

17/09/2013

Se eu fosse poeta
Todos os dias seriam
Maiores que a imensidão.
Todos eles teriam
Horas vagas a bater no coração.
Não haveria segundas-feiras
Nem as fainas rotineiras
A fazer do tempo prisão.
Nesses dias, abertos e livres,
Tomando as estrelas na palma da mão,
Teria nos sonhos os meus víveres
E seria livre, como os poetas são.

h1

Quebra-cabeças

17/09/2013

O meu grande quebra-cabeças de poeta: ser tão nada à míngua excessiva de ser tanto.

h1

Os caminhos da dúvida

17/09/2013

Nem por nada subir a viseira ao elmo. Manter a lança da ilusão em punho. Reagir. Rebelar-me contra os deuses. Rebelar-me contra os homens. Rebelar-me contra mim. Dar passadas firmes na certeza dos caminhos sinuosos da dúvida.

h1

Polaroid

17/09/2013

Uma barrela emotiva que me deixou como se tivesse acabado de vir de um campo de colmeias. Estávamos a salvo dos narizes bisbilhoteiros, a interlocutora era de confiança e o espaço tresandava apenas a silêncios e ao húmus expressivo onde tem medrado toda a nossa intimidade. E antes que a máscara desesperada de crispação e amargura que lhe apresentava me ficasse irremediavelmente inculcada na cara para todo o sempre, pondo em causa tudo quanto nos faz dignos do poder superlativo da amizade, deixei-a cair e a confissão quebrou-se como cristal no chão sensível das nossas ilusões:
– Sabe, o meu grande problema é que eu sou um romântico! – E como em tudo na vida, acabei sem saber se procedi bem ou mal. Parece, sim, que fiquei mais perto de mim mesmo e mais longe do alcance das minhas frustrações.
Não há como ocultá-lo. O verdadeiro fundo da nossa identidade revela-se no calor instantâneo dos pudores mais desinibidos. Ao cabo e ao resto, funcionam como a fotografia do cartão do cidadão: só temos uma hipótese de mostrar o que verdadeiramente somos. Na impossibilidade de lavar as mãos perante as consequências das palavras e dos gestos, ou ficamos bem, ou ficamos mal. Se ficamos bem, pois muito bem. Se ficamos mal, não nos resta outro remédio senão pedir desculpas sinceras a todos aqueles a quem diariamente apresentamos as veras da nossa identificação.

h1

Mar

25/08/2013

O mar. Um Portugal com fronteiras de ócio fora do tempo e fora do espaço. O denominador comum de dez milhões de amarguras fraccionadas estendidas sob a sombra de horas indulgentes. O país inteiro como um taipal de pedra basculado a um Atlântico de futilidades, onde até eu, que as renuncio em absoluto, gosto, às vezes, de me inserir para poder sentir-me tão português, tão alodial e tão sonâmbulo como os outros. O mar. A razão contemplativa da nossa opulência histórica medida pelas incertezas desmesuradas de um futuro panorâmico que deixa de ser um suplício contrito de resignação para passar a ser um exercício infinito da imaginação.

Mar! Mar! Mar!
Nenhuma outra palavra me completa.
Nenhuma outra me faz navegar
Nos horizontes infinitos de poeta.

Mar! Mar! Mar!
E de repente, à tona da inspiração,
Vem uma maré cheia de temas.
E o vaivém das ondas é uma rebentação
Ressoando a frescura dos poemas.

Mar! Mar! Mar!
E o panorama de versos não cessa,
Até o sol cansado finalmente pousar
No fundo azul onde o lirismo recomeça.

h1

As casas abandonadas da vila

14/08/2013

As casas abandonadas da vila lembram-me retratos antigos. Olho para elas a apagar-se, gastas nos cantos, os vidros baços, os telhados cabisbaixos, e consigo ver lá dentro vidas, gente, pais, mães, avós lavando a loiça, crianças decorando a tabuada, barulhos, brilhos, movimento. Fantasmas de cimento sustendo a respiração, à espera que, por fim, o esquecimento os mergulhe de vez na paisagem precária de nós mesmos. Ruínas tímidas desalojadas do Futuro quando lhes demolimos o Passado.

casas_velhas

h1

Génesis

09/08/2013

Quem foi que nos escreveu
Nas brancas páginas caladas
Que a vida nos concedeu
Quando éramos dois nadas?
Foi quem foi, mas ninguém leu
Nos meus lábios e nos teus
A caligrafia em letras mortas
Onde eras um verso direito de Deus
Escrito nas minhas linhas tortas.