Posts Tagged ‘gestos’

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Polaroid

17/09/2013

Uma barrela emotiva que me deixou como se tivesse acabado de vir de um campo de colmeias. Estávamos a salvo dos narizes bisbilhoteiros, a interlocutora era de confiança e o espaço tresandava apenas a silêncios e ao húmus expressivo onde tem medrado toda a nossa intimidade. E antes que a máscara desesperada de crispação e amargura que lhe apresentava me ficasse irremediavelmente inculcada na cara para todo o sempre, pondo em causa tudo quanto nos faz dignos do poder superlativo da amizade, deixei-a cair e a confissão quebrou-se como cristal no chão sensível das nossas ilusões:
– Sabe, o meu grande problema é que eu sou um romântico! – E como em tudo na vida, acabei sem saber se procedi bem ou mal. Parece, sim, que fiquei mais perto de mim mesmo e mais longe do alcance das minhas frustrações.
Não há como ocultá-lo. O verdadeiro fundo da nossa identidade revela-se no calor instantâneo dos pudores mais desinibidos. Ao cabo e ao resto, funcionam como a fotografia do cartão do cidadão: só temos uma hipótese de mostrar o que verdadeiramente somos. Na impossibilidade de lavar as mãos perante as consequências das palavras e dos gestos, ou ficamos bem, ou ficamos mal. Se ficamos bem, pois muito bem. Se ficamos mal, não nos resta outro remédio senão pedir desculpas sinceras a todos aqueles a quem diariamente apresentamos as veras da nossa identificação.

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Dois gumes

16/06/2012

Não há maneira de pôr cobro à  selva hostil e confrangedora que me separa dos outros. Nos gestos e nas palavras, sou uma catana de dois gumes inteiriços. Esquecido das insanáveis cicatrizes desta realidade, passo o tempo a arremessar-me, na vã tentativa de  abrir clareiras conciliadoras e a traçar lanhos insofridos nas mãos.

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Assinatura

13/06/2012

Guardo para ti o melhor poema.

E fica a saber que o tema

Não é os restos

Mortais que agora lês

Nem o movimento dos gestos

Reflectidos na beleza dos olhos com que os vês.

Fica a saber que não é isto

Nem aquilo que tens visto

Noutros versos desajeitados

Guardados

Na estante do silêncio.

Não são os brados

Roucos e doridos

Cantados numa letra que desafina.

Hão-de ser beijos desmedidos

Saídos

Da mão que os assina.