Archive for Outubro, 2011

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Saibo

27/10/2011

Foi de caixão à cova. Dias seguidos numa luta surda, num corpo a corpo com uns versos, à espera de uma talisca por onde franquear tanto pudor. Simplesmente, como um mouro renegado, de sentinela frouxa à porta da traição, deixei correr novamente:

Em tudo o que escrevo

Há um saibo de amargura,

Um travo de desgosto.

Um pingo de tristeza destilada

Numa secura

De alma e de mosto.

Um pouco de angústia, um quê de tormento.

Um tudo já de nadas

E duas mãos apertadas:

Um sufoco de aniquilamento.

Serra!

E tudo o que escrevo se enterra

E contradiz.

Tudo em mim se abala e se recria

Numa silenciosa sinfonia

À terra e à raiz.

Fotografia: Humberto Veríssimo

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Acordo Ortográfico

01/10/2011

Escrever às ordens do Acordo Ortográfico. A mão, tomada por não sei que atávico assomo de insubmissão, insiste em dar às palavras a feição tosca da cantaria antiga. Pareço herdeiro daqueles ofícios vernaculares, transmitidos pelos cromossomas na linhagem das gerações. Porém, no meu caso, em que a escola não instruiu os meus avôs a mais que assinar o nome ou borrar o bilhete de identidade de dedadas gastas, o que eu queria era lavrar textos com a mesma esquadria prodigiosa com que eles ergueram muros de pedra seca. Na certeza de que, depois de mortos, cada pedra continuaria a cumprir a sua função no tempo.