Posts Tagged ‘paisagem’

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Sinais trocados

15/04/2013

É interessante, a matemática do processo. Em dias anquilosados como o de hoje, a presunção de que a paisagem pode muito bem ser um estado de alma está de tal modo explicitada cá dentro, que me basta encarar a infindável harmonia universal desta que agora me envolve para estragar tudo. Hostil e afastativo, desterrado cá nos meus desterros de angústia, em vez de me engrandecer integrado nela e com ela, diminuo-a, profano-a, amesquinho-a. Mais com menos dá menos, diz a regra dos sinais.

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A minha Picota

19/11/2012

Ontem, o mar, hoje, a montanha. Desanimado, meti-me pelos cerros acima até chegar ao topo da Picota, onde alívio agora a minha aflição desiludida seguindo religiosamente a prescrição de uma dieta geológica à base de micas e feldspatos. Perdido como um cão apavorado pelo rebentamento da pólvora, tinha de ser aqui, no cimo desta penedia nua, no centro de uma pobreza cristalina, que eu podia encontrar-me na tradução física exterior dos meus calvários interiores. Uma alma solitária, atribulada, purulenta e em carne viva, submissa à realeza de uma mole titânica, também ela descarnada de revestimentos, exercendo um domínio imperial sobre a restante paisagem estendida a seus pés. Lado a lado, um vulcão de lava eruptiva presumida e um vulcão de lava emotiva reprimida a compreenderem-se nos silêncios gretados das pedras. Exageradamente, tanto tenho ampliado com a lupa dos sentidos a rudeza inexpugnável destes rochedos sieníticos, que dou por mim a desejar ser um aditamento mineral da sua fácies, apenas posto a nu nas areias estéreis de uns míseros poemas cantados às erosões da vida.
Fez-se tarde. Um hálito frio de nortada lambe tudo e barbeia-me a cara em restolho. Lá em baixo, na vila, charutos de fumo acendem-se sobre os telhados, esbatendo a nitidez às pregas da paisagem. Chama-me a lareira doméstica. Deixo de ser espectador enfeudado à Natureza e desço de novo até mim; até esse vale de lágrimas onde serei outra vez serras e serras de tristeza agreste até perder de vista.

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Verão

04/07/2012

Verão

A palavra acalora-se no chão

E despe a casaca encardida das misérias.

Pára o tempo num céu azul de lassidão.

É a própria vida que vai de férias.

 

Nem o sopro fresco de uma aragem

Se sente.

Quieta, eloquente,

A paisagem

Dorme à sombra da ramagem,

Sob as folhas de uma sesta permanente.

 

Alto,

O sol erguido a pino num só salto,

Traz às horas um clarão de levedura.

Contornos ondulados no asfalto,

Despertam dos braços da negrura.

Evaporados

E afogueados

Num bafo amargo de secura.

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Rocha Negra

18/06/2012

A Rocha Negra é uma das mais belas tragédias telúricas de onde se pode contemplar o buliçoso litoral algarvio. Vista do sul, a apascentar rebanhos de carneiros num agitado e viçoso pasto salgado e cor de esmeralda, emproada na sua dureza fuliginosa, parece sabiamente separada da desoladora paisagem urbana circundante. Vestígio inapagável de vulcanismo na região, estéril, inefável e agressiva, as ondas não lhe aleijam os pés, o sal não lhe abre gretas na tez parda, as brisas nebulosas não lhe ofuscam as vistas e o homem não lhe alcança a verdadeira grandeza do âmago senão a partir mar, embarcado numa casca de noz. Nos mais de 70 milhões de anos da sua existência geológica, e nos 200 mil de homo sapiens, nenhum dos Judas que venderam cada pedaço de praia ao mafarrico, deitando as sementes do cimento armado no chão das figueiras que mandaram cortar para não pendurarem, depois, os remorsos da traição à terra, lhe concedeu a honra devida. Ou a louvá-la, cantando-lhe loas, ou, à falta de figueiras, a beatificá-la, atirando-se dos píncaros deste ermo e a estatelar-se no fundo do abismo.

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Cabo Sardão

23/05/2012

Cá vim carrear-me nestas alanceadas arribas alentejanas, onde a desolação erma da paisagem remendada por retalhos policromados de regadio acaba num parapeito vertiginoso de xisto debruçado ao horizonte caleidoscópico do mar. Morde-me não sei que vontade de, numa cabriola, atirar-me às suas entranhas líquidas e, enleado nos grilhões de sal das correntes, deixar-me ir como uma  mensagem de SOS guardada dentro de uma  garrafa de vidro. Na vã esperança de que alguém, numa outra bruma recôndita do mundo, me possa recolher e decifrar neste enigma de náufrago da vida imerso em dúvidas herméticas. Um náufrago enfastiado de se conhecer e ávido de se descobrir.