Posts Tagged ‘Jornal de Monchique’

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Natal

25/12/2011

É uma história de Inverno:

Chovia.

O Menino, embrulhado em frio e calor materno

A muito custo

Adormecia.

O rei, que era injusto,

invejoso e sofria,

Mandou calar o choramingar

Que a noite ouvia.

Cega, a espada vingadora

Correu casas e ruelas,

Arrombou portas e janelas

Sem ver no curral a manjedoura.

A salvo do tirano,

Glorificou-se o Menino

E tornou-se mais humano

O frio desse Natal Divino.

 

Na edição natalícia do Jornal de Monchique, há um conto sobre um Natal terroso e concreto, onde o poder humano é tão gregário e tão essencial que parece milagre o calor doce que irradia das criaturas que o habitam.

 

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Lázaro I

02/11/2011

Lá vou lavrando a minha prosa, lapidando palavras, na íntima certeza de que cada frase construída é um muro escarpado só tornado transponível após horas e horas de arremesso laborioso da picareta contra a rijeza desprendada do talento. E fico à espera, cheio da mesma paciência. À espera que uma só revelação dos sentidos possa surpreender até o mais intransigente dos carrascos de tudo aquilo que digo, escrevo e faço: eu.

 

Eis a minha habitual crónica no Jornal de Monchique.

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Largo dos Chorões

03/02/2011

Hoje, na Biblioteca Municipal Silva Carriço, em Monchique, uma senhora lia, de alma aberta, a minha habitual crónica no Jornal de Monchique, cuja narrativa se aglomerava torrencialmente nos irrequietos e irreverentes «Marosquinhas». (Sim, os maraus voltaram a fazer das suas no Largo que é o centro do Mundo monchiquense.)

Quando acabou de ler, tocou-me ao de leve no ombro, apontou para as minhas palavras tisnadas no jornal, perguntando se era eu o autor do texto. Sorri, envergonhei-me, disse sim e quis fugir. Replicou a timidez do meu sorriso e disse que gostava muito de ler as minhas crónicas. Sem hipótese de me dissolver na fria solidão dos muitos livros que nos cercavam, acabei por ser eu a agradecer-lhe, humildemente, com versos tão parvos e tão espontâneos:

«-É bom saber que alguém lê com prazer um gosto que me faz doer, este que é escrever». 

A crónica segue aqui.

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Zé Constâncio

07/09/2010

Na minha habitual crónica do Jornal de Monchique, palavras lavradas com o arado da ternura para quem nunca as poderia ter lido, a não ser com os ouvidos: o meu avô materno. Por esta mão sou transportado a um tempo em que, na minha terra, em tempos não muito longínquos, homens e bovinos se enxertavam de vida uns nos outros, numa comunhão de destinos quase simbiótica. Numa vila instruída a valores de honra superior, a tourada agendada para o próximo fim-de-semana é a expressão sincera do desenraizamento da nossa identidade cultural e de retrocesso de humanidade, ética e moral.

                                                                                    

Abençoada de fartura de tudo quanto a Natureza lhe dispôs, Monchique é um versículo decantado do Pentateuco . A Fóia e a Picota, como duas mãos de pedra retalhada, erguem-se humildemente numa oração sepulcral de penitência aos céus e, no tumescido chão, talhadas ora no sienito ora no xisto, cumprem-se as Sagradas Escrituras: a Aliança de Deus com o homem, e este, na sua índole refractária, a pecar deslumbrado com a promessa de uma nova aliança; a Terra Prometida em matas de eucaliptos, arrobas de cortiça e duas ou três quadras de batatas, ou mais, conforme as posses de cada um; e a perenidade do Povo rasgando o caminho poeirento do destino a picareta. A gestão disso é quanto basta aos poderes de um Deus só.

E quem vê a talha dourada das molduras deste quadro não cuida que a vida dos últimos Patriarcas desta Serra, convertidos em profetas do mistério da fé na vida harmoniosa entre todos os seres da Terra, foi uma missa desprovida dos mais sagrados dogmas e rituais.

Como o Zé Constâncio, por exemplo, nunca houve, neste amontoado de cerros sáfaros, igual a ele. Era o reverberar da dureza do solo casto em que as suas raízes se firmavam, embebedadas da mais vital e subtil seiva a escoar nas gargantas e nos barrancos. Libava-lhes, com os tojos e as rosas albardeiras, a justificação que o enrijecia e agigantava numa luminosidade de espírito reconhecida por todos quantos lhe requisitavam os serviços voluptuosos do Cravinho, um cobridor da cor do barro, de graves mugidos, a quem a filiação herdava impreterivelmente as hastes amoladas na ponta, o porte severo, robusto, espartano, e o tique de escarvar afanosamente o lajedo com os canelos de trás. Bezerro que lhe descendesse não sucumbia ao atrito pesado da relha a trincar o fundo às penedias. Às vitelas por ele geradas nunca secavam as tetas.

Jungidos pela canga do destino, o Zé Constâncio e o Cravinho foram palmilhando os carreiros alcatifados da boa fama como as veredas que ambos percorreram semeando o milagre da vida pelos estábulos da Serra. E já eram poucos os que não tinham ouvido falar da linhagem do Cravinho e não espalhassem as façanhas perfeitas do prolongamento da sua existência noutras terras, noutros mercados e noutras feiras, ao ponto de nem a almudes de aguardente, nem a courelas, nem a dinheiro se conseguir demover o Zé Constâncio da sua maior fortuna. Vinha gente de fora, disposta a pagar uma dinheirama, e nada. Veio numa feira o Pedrosa, um latifundiário encacheirado do Cartaxo, possuidor de uma ganadaria de estremas ruminadas no horizonte apascentado por sol, lua e gado dia e noite, de carteira engordada a notas insurrectas a rasgar-lhe os pespontos da camisa, e foi isto, na parcela destinada ao comércio de gado:

– É você que é o Zé Constâncio?!

– Assim o disseram os meus pais, padrinhos e o padre que me ungiu diante da pia baptismal. Deus os tenha em boa conserva… E a si, também… – respondeu, desenvoltamente, com um sorriso ágil que parecia sair-lhe da boina que desenterrara na solenidade do cumprimento desconhecido.

– Diz que tem aí um cobridor que é um primor. Comprovei-lhe o crédito das façanhas nos bisnetos e trisnetos que já lá chegaram ao Cartaxo. Tem fibra para a procriação, o bicho!

– Lá isso… Dispensa apontador e quase nem é preciso picar durante a lavra… – atalhou o de Monchique com o mesmo sorriso límpido com que vaiou inicialmente o ganadeiro.

– A como o vende? – albardou o outro à vontade, atirando secamente a mão de encontro à saliência das notas inchadas no bolso da camisa estriada.

– O Cravinho não se vende, meu amigo. É quase família, percebe? É o motor da vida que a mim já me vai faltando. Se o vendesse, éramos dois desgraçados… Compreende? Nem por essas notas, nem por uma camioneta delas. Se o quiser para procriação é levar lá ao monte a vitela que a coisa faz-se. Essas primaveras da vida não tenho eu o poder divino de negá-las, nem à bicheza.

Ao cabo de um mês, o Pedrosa, de botas de cano alto, chapéu de abas largas e a mesma camisa a estoirar de dinheiro no bolso, voltou, com a vaca que haveria de ser a mãe dos enésimos filhos do Cravinho. Encostou-se ao muro de pedra musgosa, com a cara escondida no jornal que fingia ler por pudor ao momento. Um passo à frente, de mãos confiadas aos quadris, o Zé Constâncio incentivava o bovino:

– Eh Cravinho… vai-te a ela… Eh shhhh, vai-te a ela…

Uma hora passada e nada, ainda. De cadeiras derreadas pelo inusitado peso na espinha e com o cachaço coberto do monco cansado que escorria do focinho largo do charolês, a vaca soltava mugidos lancinantes de impaciência que abafavam a perseverança dos encorajamentos do Zé Constâncio. O fósforo riscava o rego do servidoiro e desviava-se do caminho, sem maneira de se acender dentro do forno íntimo e fecundo da vaca.

– Enganaram-me bem enganado “sôr” Zé! O boi nem sequer sabe o caminho e a vaca está nas últimas. O melhor é dar o serviço aos toiros do Cartaxo! Assim não vai lá, não!

Ao motejo protestante do Pedrosa, o Constâncio, com as costas do antebraço limpando pensativamente a testa orvalhada de pingos de suor comprometido, tomou a decisão de mostrar que em frente do curro é que o toiro se vê. Num gesto tão brusco quanto puro e espontâneo, surripiou o jornal às mãos vagas do Pedrosa, embrulhou-o no gume inteiriçado do charolês, e, apontando-o às partes da vaca, disse, resoluto:

– Ah vai, vai… Vai e até vai lendo!

Parvo e ligeiramente assustado ainda, o Pedrosa fitava o milagre consumado, boquiaberto. Aterrou-lhe novamente a voz abrutalhada do Zé Constâncio, como uma juncada que o acordou da hipnose:

– Eh “sôr” Pedrosa, aqui já não valemos para nada. Vamos andando para cima que, nestas coisas da intimidade da criação, o melhor é deixar correr!

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[H]à tourada

31/08/2010

Um exílio na Natureza em carne viva e, de volta ao aconchego maternal das dobras do xaile da rocha-mãe, isto. Pegas de cernelha à mancheia, apregoadas a cornetim e com cornaduras de varar as entranhas da alma, sempre as houve aqui neste lugar de sienito e xisto tumescidos numa oração sepulcral de penitência aos céus. A mulher do senhor X e o marido da dona Y que desfraldem a ira reprimida nos rubescentes capotes e as contem na primeira pessoa, se quiserem. 

Antes deste tempo de hoje, que sem conhecer os mistérios da puberdade é já um velho, serôdio, lacaio, corcovado sobre si próprio, olhando as unhas dos pés gastos, atafulhados no sarro, Monchique foi o presépio do Mundo, a manjedoura onde o Menino redentor mamou da Mãe o primeiro leite, enrolado na palha renegada do berço e aquecido pelo hálito da vaca no morno sacrifício da existência humana. E quem, seguindo a estrela da miséria, assistia humildemente a este milagre, via uma missa desprovida dos mais sagrados dogmas e rituais, convertido em profeta do mistério da fé na vida harmoniosa entre todos os seres da Terra.

Contou-me há tempos, alguém despido da suspeição dos laços familiares, que um dos meus avôs, que melhor que eu o conheceram os sobreiros e os cálices de aguardente, foi testemunha do milagre, tal qual vem nos Evangelhos. Boi de canga de outros homens como os outros de cornos e mugidos, criador de gado a quem a fortuna só o cobriu de sofrimento, possuía no estábulo o cobridor mais apurado. Não havia na Serra novilho ou vitela que não o tivesse na linhagem.

O resto desta história de honradez e grandiosidade superior, em que os homens da minha terra e o gado bovino se fizeram cúmplices na mesma manada da criação sem o ferrete tolo das pífias lides  de ferro, capotes e bandarilhas, pode ser visto muito brevemente, na minha próxima crónica, no Jornal de Monchique.

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Doutores da mula ruça

07/07/2010

Setembro na molura. A Serra como um borralho, ajoujada ao sopro de lume afiado que ferve nos dias infinitamente quentes do estio, espreguiça-se em lânguidos bocejos verdes. E logo adormece num restolho vago de vida. Debaixo da sombra pesarosa e desluzida que jorra das tileiras raquíticas do largo, varridos como as folhas secas mastigadas pelo vento a enrodilhar-se em acanhadas refegas contra os pés, juntam-se os doutores da mula ruça.

É à tardinha, à hora em que os doutores da mula ruça lembram o tempo em que eram homens. A hora em que eram homens em busca de uma nesga de afirmação superlativa, enterrados no húmus fecundo dos outeiros, a regressar da jornada, estiolados. Mãos e lombos invisíveis de outros homens que lhes esqueceram a vontade em troco de um nada de fome enganado, condenados desde cedo a ler o Mundo com o olho laborioso da enxada, os doutores da mula ruça recostam-se, silenciosamente, nos bancos achavascados do largo. E escutam.

Aos poucos, aquele lugar é um rio assoreado de velhos com as orelhas desfraldadas às histórias da senhora dona Joaninha Rita. Da janela grande do pequeno quarto, nivelada um metro acima da soleira do largo, ouve-se a voz da mulher, alta, mole e resfolegada, deletreando pedaços de livros e alfarrábios, alheia ao encantamento fulgurado nos olhos das testemunhas prostradas no lado de fora da casa deserta de outra gente que não ela.

Calados, sob a sombra sisuda do largo, os doutores da mula ruça ouvem pensativamente a senhora dona Joaninha Rita enquanto fumam onças de tabaco feroz. Afincados ao de leve entre os lábios secos, os cigarros ardem vagarosamente em zorreiras de fumo que se desvanecem como os finais de tarde e de céu alaranjados. As tardinhas são pedaços de dias a desaguar num abismo de breu picado de estrelas cuja aragem, morna e com míngua de luar, é incapaz de trespassar as frinchas da janela já fechada. No escuro da rua, só com a luzinha palpitante das piriscas a esclarecer-lhes o caminho, os doutores da mula ruça dispersam-se e tornam à lassidão solitária dos lares, de alma cheia e barriga vazia. Voltam amanhã, à hora dos homens. O Vicente, que mora a uma lonjura de três jardas, abala num carro de praça.

Tornam a voltar amanhã, mas a janela do quarto permanece fechada. Quando a senhora dona Joaninha Rita fica deitada, por mor da dor ciática, o Vicente desenterra a melódica do bornal e os doutores da mula ruça começam a trautear modulações antigas, do tempo em que eram homens, polinizando a ternura afogueada do ar com elegância, como se a cantoria rebentasse por entre os grãos desgrenhados da terra preta nos valados, escorresse docemente pelas encostas frescas da Serra e desabrochasse finalmente no largo.

Menina dá-me um beijo não sou rapaz mau / sou aprendiz de ferreiro com espeto de pau… lailailalailalau / Beijo desta minha boca não sai / queres casar comigo pede-me a meu pai / lailailalailalarailarau.

Meneando-se por entre os poros das paredes toscas de cal, dissimulada numa retribuição milagrosa pelas horas de leitura, a solfejação da melódica embalsamava o tabernáculo e aturdia o nervo ciático da senhora dona Joaninha Rita num sono desperto que a deixava a levitar, farta de paz. O compasso surdo dos lábios secos e sulcados, expirando lentamente, acompanhava então o cândido trinado vindo do largo, até se lhe alijar a dor.

Às vezes, acercava-se dos doutores da mula ruça o homem que, de uma vez só, os levara à investidura inexorável da pia baptismal. O Pouca-Telha, o regateiro. Uma tarde, por vingança, pirraça ou serrazina, mete a máquina de sulfatar às costas, e toca a pulverizar a vil calda bordalesa pelas ruas da vila.

– Aquela moita de carquejas serôdias, como burros, apeados no largo, uns dias especados a ouvir as leituras da senhora dona Joaninha Rita, outros a zangarrear e a falar sobre o outro tempo, são os doutores da mula ruça. – pregava, rançoso, em ufanos balidos, renovados entre sorrisinhos retraçados de escorbuto.

Os doutores da mula ruça, que à nascença também não tinham sido consultados sobre a pertinência dos próprios nomes, amassados pelas chicotadas flamejantes que o sol lhes trespassara impiedosamente nas carnes ossudas da alombadura durante os anos da criação, estavam-se marimbando para os epítetos que o pó e cinzas da velhice agora lhes traziam. E ouviam as leituras da senhora dona Joaninha Rita, e cantavam a suas melodias, com a cadência embevecida de sempre.

Aposentado das Finanças muito antes do momento em que o corpo pede a trégua alodial, o Arlindo Pouca-Telha era uma figurilha pitoresca a quem o pino do sol aplainava um brilho gorduroso na penugenta careca. Minou-lhe um caruncho indominável de cólera abespinhada aos doutores da mula ruça o dia em que o Joaquim latoeiro, o Vicente, o Aduela e o Toino golpelha, valendo-se da prosa de um conto escrito por um famoso escritor da vila, derramada no largo pela boca da senhora dona Joaninha Rita, manhosamente o convenceram de que na fonte do largo da feira gorgolhava, pastosa, uma água preta que, não matando a sede, havia de ajudar a matar a fome.

– Diz que até o Presidente da República quer vir aí e tudo…

– É?

– Olarila!

Assomava-se-lhe aquilo como uma fraga virgem com cio de cava. O acontecimento trazia a oportunidade de dar a conhecer o seu génio amordaçado. Se não era doutor nem engenheiro de formação, haveria de agarrar o solteiro ensejo de vir a ser alardeado como artista. Fosse como fosse, não perdia nada em escrever um texto para o jornal, entoando um panegírico “à milagrosa descoberta que desencravaria a Serra da hibernação apática de largos anos”. E, com estas palavras, deixou os doutores da mula ruça deleitados nos bancos duros do largo.

Sem tampouco ver para crer na pureza do negrume a brotar da bica no largo da feira, a composição estampada no papel, três vezes revista e expedida, quando o Pouca-Telha sentiu o aperto do laço que os doutores da mula ruça lhe haviam armado, já o director do jornal rebentava em gargalhadas estrepitosas na redacção. 

E, se o Aduela, ao mesmo tempo que a lâmina extenuada da navalha empurra a porcaria debaixo das unhas, se atreve a perguntar para quando sai o texto, o Pouca-Telha espreme-se todo num mar encapelado de pragas e desculpas esfarrapadas.

Foi isto muito antes da senhora dona Joaninha Rita se exilar no lar da Misericórdia e de o Vicente ter sido varado por uma trombose que o deixou de boca ao lado e sem mando nos braços. Hoje, um vento desgraçado penteia os eucaliptais que rodeiam a vila e o largo envolve-se numa solidão de morte, envergonhado. Só ainda lá está o Pouca-Telha, a espiolhar, de braço dado a uma sombra gorda e baça de pernilongo, quem sabe se à procura de petróleo.

                                         

No país dos doutores e engenheiros, avaras palavras àqueles a quem a escola pública nunca chegou, nem sequer com um aceno. Os doutores da mula ruça estão na minha usual crónica do Jornal de Monchique.

A origem da expressão «doutores da mula ruça», detalhadamente explicada aqui, neste blogue amigo.

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Letes

31/05/2010

[Estige, Aqueronte, Cocito, Flegetone e Letes, são os rios que sulcam as paisagens flamejantes do Inferno. Banhando as margens lancinantes onde se amontoam os espíritos, as áridas águas paradas a crepitar no leito saciam a amargura sequiosa do passado e lavam a alma num profundo esquecimento. O Letes e quem dele emborcou uma golada imémore, no casculho habitual de que é feita a minha crónica no Jornal de Monchique.

Tratando-se do arranjo de um esboço de história já conhecida dos mais vetustos seguidores do blogue, volto a partilhá-la aqui mesmo, na terra escalavrada em que foi semeado, livre dos pudicos químicos de síntese a que a publicação num jornal respeitoso deve obedecer:]

Ao dobrar a curva do tanque do povo, o sentido faminto da matilha de rafeiros tresmalhados e ensopados com que se cruzava sem se dar conta, parecia muito mais obstinado que o da sua própria vida. Trôpego, com retumbantes passadas que faziam reflexo nas paredes estranguladas da azinhaga, de colher e talocha nas mãos, despontou no portaló da venda como uma quimera macilenta. Reprimido pela mão forte e temulenta da Gravidade, era-lhe difícil retesar-se. Ergueu-se frouxamente, ao mesmo tempo que a voz tão pesada como as pálpebras inertes por debaixo do boné atafulhado até metade das minúsculas orelhas se arrastou num azedume de berros taciturnos:

– Não me toquem, não me toquem! Que ninguém me toque! Faz favor…que ninguém me toque!

De imediato, abeirou-se dele o empregado. Compadecido, contestou:

– Olha o Juquinha, está de mal com o mundo, amigo? – Ainda mal as palavras do empregado lhe marulhavam nas profundezas do canal auditivo e o Juca larião, que tinha uma voz rouca, de arrã, já remoqueava de volta:

– O meu irmão…tenho aqui uma coisa boa para ele: Um par de peras. Hoje dou-lhe um par de peras…madurinhas…boas! Um parzinho de peras na focinheira! Levo eu a mourejar, alombo a carregar o mundo pedra a pedra… A minha mãe desunha-se e o lorde mama-nos tudo. E que o mandrião nos roube, que o sacripanta não queira trabalhar, não faz mal. Ainda forro algum para tabaco e cerveja. Agora, dar porrada à minha mãe por não lhe querer pagar os vícios?! Descambou ao ponto de prometer-lhe mais uma parelha de cacetadas amanhã… Nem pensar! Duas peras dou-lhas eu hoje. É pôr os pezinhos em casa! Eu bem tenho andado aí à procura dele pela vila. Corri seca e meca e olivares de Santarém…

Ódio e amor eram azeite e águas-ruças brotando diluídos nas profundezas confusas das emoções diluvianas em que se afogava. Na geografia do monólogo de Juca não existia nem raia nem guarda a apartá-los. Falava de um e de outro como se fossem um só, uno e indivisível.

– E hoje estive com a minha garina. Fizemos as pazes esta tarde. – Dizia e esfregava as mãos como se nelas polisse o sentimento que as vestia e deitava uma risada marota.

Na mesa ao lado, dois rapazes assistiam a tudo, inebriados. Acamaradou-se com eles e falou-lhes do leito amoroso, da discussão com a garina, dos golpes de charme que a faziam babar por ele, das melosas juras de amor eterno, do pino e outras manobras de corpo que tinha conseguido exibir durante a tarde, justamente para a impressionar. Convincente, tagarelava sobre a felicidade que lhe percorria o corpo, desde a alma até aos ossos, gesticulando com os dedos amarelecidos pelo tabaco, até se lhe abafarem as palavras numa capa de escuma esbranquiçada aos cantos da boca.

E não fora o Pouca-Telha, que do balcão examinava aquela descrição abocanhando cervejas que ingurgitava de enfiada, a decidir-se a contar a profunda sesta ébria do Juca larião por sobre uma das mesas da esplanada do café do largo, durante toda a tarde, e todos teriam sido persuadidos de que, apesar das contas a ajustar com o irmão, estava realmente feliz. Foi, pois, um pormenor, uma triste minudência a estragar tudo. Felizmente, não foi dita a tempo de envergonhar quem quer que fosse por já lá não estar o Juca larião, novamente relutante em tornar a casa e cumprir a promessa de entregar o «par de peras» ao irmão.

Pela Serpa Pinto, tornou a dar de chofre com a matilha de cães vadios escarafunchando um contentor de lixo tolhido pela enfartada ventania. Uma malha de poças enegrecidas entristeciam a rua e tornavam ainda mais lúgubre a figura de Juca larião, bamboleando às tabelas nas paredes escorregadias, furtando-se por entre os fios irritantes da chuvinha insípida que pouco ou nada o molhava.

Bambeavam-lhe as pernas quando, já à porta de casa, arfava pestilentas baforadas azulinas que ofuscavam o vidro do postigo. Ao cabo de uma dúzia de mocadas contínuas que fizeram estremecer de medo a porta musgosa, a figura do irmão apareceu do outro lado, de olhos semicerrados por um sono narcotizado. Começava a porta a entreabrir-se e o larião, num assomo de Sansão, já a empurrava contra o outro, atravancando-o junto à parede. Com as duas manápulas acopladas ao gargalo do irmão, Juca aproximou-lhe o bafo silencioso e tépido e fitou-o nos olhos lancinantes. O outro acovardava-se, impando à medida que as forças se lhe sumiam concentradas nas palmas das mãos de Juca. Enfraquecido pela incontornável pena fraternal, com a sua vozinha de arrã, o larião coaxou finalmente:

– Um par de cachaporras nos queixos e passavam-te as manias… Sabes que mais?!  Cago-me em cabrões que amanhã chove merda! Amaldiçoado sejas! – Largou-o, esmorecido, e foi escanchar-se na cama, sem sequer tirar a roupa, apenas as botas e o boné, deixando o cabelo num molho de tojo acamado.

Acordou, estremunhado, não era ainda madrugada, com os ouvidos perfurados pelo barulho das goteiras que batucavam ferrugentas numa lata de tinta velha. Ao lado, o irmão roncava. A boca sabia-lhe a podre e um ligeiro azamboamento tolhia-o pulsando em pontadas ritmadas compassadamente na cabeça. Ergueu-se, enfiou as botas gastas e cansadas. Atafulhou o boné, e foi à labuta.