Posts Tagged ‘Sonhos’

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O poder da palavra

14/07/2013

Que desgraça seríamos nós sem as palavras. Mesmo aquelas que não passam de uma convencional transcrição gráfica das emoções e deixam perder uma grande parte da essência daquilo que sentimos. Todas elas têm implícitas as dimensões fundamentais de um volume, de um tamanho e de uma distância. Não são os objectos, os factos ou os sentimentos e não os substituem na linguagem dos sentidos, mas são aquilo que mais nos aproxima das coisas que nomeiam. Por exemplo: dizemos mar e mergulhamos; dizemos céu e voamos; dizemos terra e caminhamos. Falamos e construímos a largueza, a fundura e a altitude que trazemos explicitadas nas paisagens dos sonhos.

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Carnaval

09/02/2013

Cortejo carnavalesco de crianças pelas ruas da vila. Um somatório de sonhos individuais congregados num rio intenso de cores e entusiasmo, folia e travessuras, por onde também desfilei há anos, trajado de palhaço. Uma torrente animada de possibilidades a inundar-me a alma de esperança em ver tantos sorrisos a desaguar no mar alto do futuro. A comandar o caudal infantil, um carro alegórico de onde escorria uma música exótica cujo tom, baixando uma oitava em cada metro, se esbatia lentamente nos drenos alongados da distância e da multidão, e chegava num murmúrio menos viçoso aos de trás. Talvez aqui esteja a alegoria mais significativa do grande carnaval da vida. Nascemos como rios impetuosos de força e de grandeza, damo-nos a todas as sinfonias e a todas as fantasias do porvir. Depois, as secas do tempo, os açudes sociais e os transvazes do carácter afastam-nos cada vez mais da nascente, e já só conseguimos lavar as desilusões que infligimos a nós próprios e aos outros pela música fantasiada que trazemos agarrada à lembrança.

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Insónia

23/01/2013

Não me peçam para sonhar.
Porque o mal é, nos intervalos,
Não querer mais acordar.
Ter novos sonhos e desejar
Concretizá-los
Num futuro presente.
Não me digam que a sonhar
Também se sente
Palpitar
Um consolo redentor
No coração.
Não, se a dimensão
Do sonho for
Maior que a ilusão
Do sonhador.

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Sonhei

28/03/2012

O que a gente sonha… Nisso, ninguém me bate. Andava, há que tempos, com a beleza doce daquelas palavras guardada em segredo no túmulo frio da timidez e, sem mais para quê, foi durante o sono que me estalaram as costuras e desatei a estoirá-las pela boca fora como bombinhas de carnaval. Um sermão a valer que terminou no miraculoso gesto afetivo onde tinha que terminar. Assim, sim, bem nos valha sonhar. É na limpidez dos sonhos que cada qual dá a conhecer a si mesmo a barrela que é à luz da liberdade desprendida: diz-se o que vem à ideia, faz-se o que nos dá na bolha, transita-se para fora os desassossegos de dentro. Isto, sem medos nem preocupações. Mas, agora, acordei. Meto a viola ao saco e retomo o jejum da transigência desabrida. Engoli o palavreado onírico da madrugada, agarrei numa tranca e ponto final. A minha natureza humana é esta: sou uma girândola de emoções trancadas por fora, à espera de um “abre-te Sésamo!”, um santo-e-senha que me garanta o ingresso na breve eternidade da vida.