Posts Tagged ‘Poesia’

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Poesia erudita

19/03/2013

Não sei se é por insuficiência de inteligível ou se é por carência de sensível – até ponho como condição que seja por ambas – mas as vozes dramáticas de certos candidatos a poetas cantando versos nas praças virtuais não me comovem um migalho sequer. Convictos de que revelam os segredos do inefável, metem o dicionário no microondas, esperam meia dúzia de minutos, juntam-lhe corantes líricos e apresentam-nos, ainda a fumegar, versos requentados. Versos de cegueira branca a negar à própria poesia o seu dom essencial: o ritmo. Pound sabia-o bem: a poesia está tanto mais próxima da sua essência quanto mais próxima estiver da música. E a maioria destes trovadores não nos consegue dar mais que estrofes eruditas ensaiadas num chanfalho. Entre a erudição expatriada de sentido dos sábios dos mistérios órficos e a grafia desajeitada e expressiva dos poetas populares, é a lira marginal dos segundos mais me enche o coração. Têm as mãos besuntadas de terra e tocam de improviso.

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Regresso

04/03/2013

Regresso à minha escola secundária, onde falei sobre poesia e sobre livros aos alunos que me sucederam nas carteiras. Diante da mesma ardósia onde li em voz alta D. Dinis, Garrett, Bocage, Camões, Antero, Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Torga, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen e outros predestinados da lira, foi-me consentida a ocasião de dedilhar as cordas vocais e dar à atmosfera um ar dos meus próprios versos. Exposto às fatias perante um auditório de jovens, foi como se assinasse no livro de ponto o sumário judicativo do futuro. Só eles, na secreta lucidez de amanhã, estarão habilitados a dizer se as magras palavras que depositei hoje no mealheiro da esperança trarão juros suficientes para que possam reparti-los caridosamente comigo na velhice.

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Bucolismo rude

14/11/2012

– Aquele poemazinho sobre as vistas do talefe da Fóia, hein!? Aquilo é que é bucolismo!

– Pois, por mim, é tudo isso que ele não é! – protestei eu, inconformado.

Nunca, por nada, fui bucólico, idílico, dado a harmonias campestres que só através do génio de um Eça me cabem nos mapas literários e vivenciais. Um chão que só é capaz de dar leiras de couves, sem gangrenas, que se não revela em carne e osso, com as chagas avivadas pelo sal agreste dos elementos, não me atrai.
A mando do ofício, simplifico a realidade em planisférios, dou-lhe escalas e pormenores, invento fronteiras. Convenções euclidianas logo a seguir transpostas pela letra redonda da poesia que, nos seus espantos, nas suas angústias, nas suas fantasias, tudo concede e imortaliza como um Globo em permanente rotação ao redor de um eixo de inquietações, e em revolução em torno dos Sóis do amor e da liberdade. É o geógrafo a levantar paredes e o arremedo de poeta a derrubá-las. Dois mundos baralhados numa  comunhão fraterna. A ambos, une-os a ideia universal de que o Homem não o é sem o rasgo definidor do espaço. O que se vê e o que se intui. O espaço que o enquadrou na superfície do passado e o espaço que o há-de enquadrar nos lugares futuros.
É por isso que, ao arregalar os olhos nestas paisagens nativas, se me insinua na retina a condenação telúrica de deuses implacáveis a impor-se a calmarias luxuriantes. Por mim, toda a serrania é violência. Uma violência prodigiosa a dar corda aos sentidos.
Olhem, com olhos quiromantes, a fundura dos abismos engolindo a ostentação sublimada e vejam ao menos as forças ciclópicas das mãos que dobraram o chão. Ouçam o sôfrego protesto torrencial dos regatos a cantarem tragédias. Sintam tremer o chouto gigantesco de homens anónimos galgando degrau a degrau a escadaria de socalcos no volume dilatado das encostas. Não! Tudo aqui é violência furtiva, virginal, bela. Um braço de ferro em equilíbrio; um corpo a corpo pegado entre Homem e Natureza feito pela mão da raiva, pelo músculo do sofrimento, pelo nervo da erosão e pela seiva da pobreza a troco de papas de fome e garrochos de medronho. Para contemplar semelhantes paisagens na sua fatídica inteireza e significação, é preciso que o peito não expluda a dimensioná-las no espírito. E nem todos trazemos calos vivos na lembrança, que nos permitam sentir tamanha dureza por baixo de tão pacificada beleza.

Fotografia: Laura Mexia

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As maravilhas da Poesia

11/11/2012

A poesia. A folha perene de todos os destinos caducos. O fruto absoluto de pomares relativos. As palavras florescidas nos descampados espinhosos da vida. Dar-lhe tudo sem nada ter, abolir-lhe o convencional, olhá-la no âmago de todas as sensibilidades para que o leitor se possa sentir perfeitamente sintonizado com ela e seduzido a assinar um termo de responsabilidade no final do poema.

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Pergunta

11/09/2012

Quem sabe o que há dentro das ondas?

Se no eco salgado dessas vagas

Há gritos de homens e o silêncio de fragas

Paradas em danças redondas?

 

Quem diz que os rios não escrevem nos pauis?

Que o mar visto assim ao natural,

Não é uma peça de enxoval

Feita de retalhos verdes e azuis?

 

Quem conhece os versos em profundidade?

Quem neles mergulha e perde o pé

Fazendo fé que a poesia é

Navegar sem sair do lugar no lago da eternidade?

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A poesia

26/08/2012

Chego ao final de cada poema com a pavorosa sensação de ser o último. De que não existe mais húmus imaginativo onde a voz da inspiração possa firmar as raízes. E fico-me na confrangedora desolação de homem que não sabe renunciar aos arroubos da mulher que o intruja.  Olho, por entre as frestas do desencantamento, a paisagem circunstante e vejo que há sombras e há luz, há pedras e há mares, há desertos e há rios, há chavascais e há flores. A poesia, como todas as naturezas espontâneas, virá, então, a seu tempo: à hora mais livre, mais pura e menos pensada.

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Sequidão

04/09/2010

A água que em ti corre

Não sacia esta gente.

Só a bebe um Sol que morre

Fusco, no Poente.

 

Um fio de seiva maninho

Lágrima triste de menino

Num vale de peito seco e quente.

Fotografia: Fóia, Dezembro de 2009.