Posts Tagged ‘Amigos’

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A superfície profunda da amizade

17/09/2013

Dei-lhe a conhecer os marcos que lhe garantiam a inexpugnabilidade de uma superfície incomensurável do meu coração. A César o que é de César… Ao longo de trinta anos de faina existencial, tenho alanceado o espectáculo tumultuoso da minha existência empenhado em compreender os outros, de modo a poder entender nas sobras qualquer coisa de mim. E, nas alturas mais desassossegadas, consciente ou inconscientemente, foi ela quem mais próximo esteve de me dar a graça complacente da compreensão. É dos poucos amigos que poderá dizer o que sou sem recorrer às charlatanices da adivinhação. É tão medularmente feliz que, quando a encontro, somos, por contágio inefável, duas felicidades congraçadas: uma que é em toda a extensão da evidência, e outra que gostava de ser para além da expressão da aparência.

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A propósito de uma mãe que me deu poesia

14/05/2013

Que mãe é esta, não a minha,
Que me segura pelos braços
E, seguindo os meus passos,
Me sorri e diz: “- caminha”?
Que voz é esta tão maternal,
Tão sonhada, tão real,
Que me acalma sem a ouvir?
Que mão é esta que me embala
E em cada silêncio me fala:
“- Estou aqui, podes dormir”?
Que próximos estamos, tão distantes.
Estando juntos, somos sozinhos.
Eu combatendo gigantes
E ela: “- já passou, são só moinhos”.

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Sísifo

14/04/2013

Tal como eu, este meu amigo é um Sísifo condenado a driblar o destino embalando uma pedra de interrogações pelas serranias da vida fora. Filhos de um tempo sem idade, uniu-nos não sei que laço fraterno de rebeldia precoce. Garotos ainda, logo no primeiro dia de aulas, insubmissos às regras mais elementares da vida colectiva, fugimos da escola. Sem outro plano de fuga que não o instinto infantil, não passámos de cem metros além muros. A consequência da evasão foi,  a descoberta do fogo nas orelhas. Desse dia permanece a forma incorruptível desta amizade duradoura, apertada pelas mãos cegas da inocência, cujo nó cego, apesar de nem sempre ser lembrado com a frequência exigida, nenhum esquecimento conseguirá desatar.
Dizia-me, há dias, este amigo, a propósito disto de ter a boca arrebentada pela febre de tantas perguntas sem resposta, enquanto víamos a pedra que arrastamos a desembestar aos trambolhões pela ladeira da ilusão abaixo:
– O nosso remédio é ler e escrever umas coisas.
Concordei imediatamente. Os livros que trago guardados na lembrança são boas testemunhas. Mas como até nas certezas mais duradouras tenho este maldito defeito de fabrico, reajo, uma vez mais, ao retardador. Escrever é a mais fiel falsificação da realidade. Por muito que a compaginação das palavras na torrente de um desabafo rebente os diques do sofrimento, nunca se diz tudo. Em cada mensagem enviada, uma parte da revelação é o concreto obscuro, a outra, adivinhação. Ou por pudor, ou por falta de amplificação de decibéis na consciência, ou, simplesmente, porque aqueles a quem falamos não têm ouvidos sensíveis às nossas súplicas, fica sempre um lodo de traição incompreendida a sedimentar-se nas batimetria de cada narrativa.

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Et tu, brute?

15/12/2012

Há uma coisa pior que não ter amigos: é ser atraiçoado por eles. A amizade… Bem tenho tentado estar à altura amorosa da empresa concedendo-lhe a honra leal de todos os préstimos. O pior é quando sou eu requerer-lhe as virtudes. Quando chega a minha vez de precisar que os outros me dispensem um cibo de compreensão, fico de mão estendida a contar os trinta vinténs da minha solidão.

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Estados de alma e a paisagem

16/10/2012

Queria que eu mudasse de lentes , que transformasse prantos exasperados em bebedeiras alegres, que comparticipasse na exaltação da flor sedosa do cardo e não no gume afiado dos espinhos:

– Você escreva coisas mais animadas. Saia das trevas. Parece que está sempre a morrer afogado em aguaceiros de desespero!

E não viu as fresas de sol a rasgar um sulco dourado numas nuvens de tempestade e terra preta que planavam sobre as várzeas de São Marcos.

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Um dia destes…

23/08/2012

É um dos poucos amigos que me lê. Sabe em que loucuras irrealizáveis ponho os meus desejos e manuseia com um virtuosismo pragmático as mesmas armas nos campos de batalha de onde, frequentemente, tenho saído derrotado. Há dias, quando lhe disse que devia deixar de escrever estas anotações diárias durante uns tempos, só para descansar, tirou do louceiro da compreensão um serviço de cumplicidade transigente e colocou em pratos limpos um migalho de paz e resignação:

– Oh homem, só no dia em que deixares de sofrer…

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Manuel do Nascimento e eu

04/01/2012

Escritor que é muito do meu entusiasmo, acho que já vos tinha falado de Manuel do Nascimento. Aqui ou noutro lado qualquer. Nasceu no dia 27 de Dezembro de 1912 no mesmo agro natal que eu. Este será, assim, o ano em que se assinalará o centenário desse dia natalício. A desfortuna anónima da morte tolheu-lhe a ânsia criativa no dia 30 de Dezembro de 1966. Dezasseis anos depois, eu nasci. Não. Não é por acreditar em coincidências. Nada disso. É, apenas, porque a repetição das datas e dos dias se cumpre aleatoriamente nas diferenças dos homens. O mundo é feito de gente que morre no mesmo dia que outros nascem e de gente que nasce nos dias em que outros morrem. Na realidade, é muito mais o espaço, a Serra de Monchique, o sentido condoído das palavras, que o mero sincronismo circunstancial do calendário a ligar-me a este autor neorrealista que tanto admiro.

No passado dia 30 de Dezembro, data em que o tempo, aleatoriamente, nos uniu, duas amigas infinitas, duas pessoas que me têm ensinado todas as possibilidades do céu humano, ofereceram-me duas primeiras edições de dois livros do autor: O Último Espectáculo, 1955, – entretanto republicado pela Junta de Freguesia de Monchique e os herdeiros do autor em 2006, –  e Mineiros, 1944. Pego agora nestas duas obras, olho para o poema (Conquista) fotografado de Miguel Torga que a baronesa me ofereceu, e é como se segurasse nas mãos trémulas o epicentro de um sismo. Do abalo emotivo, sobram as palavras que me foram deixadas num desses livros, e que o sismógrafo dos meus dias jamais apagará:

«Olá, Edu!

Prontinho para fazer o último dos vintes?

Isso quer dizer que és quase um Tritão… ou será trintão!? Enfim, seja como for, é sinónimo de sabedoria, maturidade, ponderação…

Bom, bom… deixemo-nos de filosofias!

O que interessa, agora, é mesmo a prenda que aqui está.

É só meia prenda. A outra metade está ainda em fase de processamento. Complementa lindamente esta metade, mas podem, ambas, viver separadamente. No entanto, a oura metade chegará atrasada (infelizmente), num dia, num mês e num ano diferentes.

Quanto a esta metade:

Se não gostares, podes devolvê-la a uma das ofertantes, já que ambas ambicionaríamos possuí-la, pois, como verás, é um espectáculo. Não obstante, a consideração, o respeito, o carinho (quase maternal) e a ternura que sentimos por ti é superior ao nosso egoísmo e ao egocentrismo. Sabemos também que a valorizarás muito mais do que nós. Mas tem cuidado! Não se parte, mas é frágil e não poderá estar ao alcance de qualquer mão!

Agora, vem a parte mais complicada:

Neste embrulho está a tua prenda, mas nem tudo o que está lá dentro te pertence! É tudo igual, mas há uma pequena, ligeira, subtil, mas valiosa diferença. Só a diferença é a tua prenda! Tudo o resto não te pertence e terá de ser devolvido à sua dona! (NOTA: o livro d’ O Último Espectáculo vinha dissimulado num labirinto de outros livros da segunda edição, empilhados como tijolos, numa caixa).

Só terás direito à tua prenda se descobrires essa diferença.

É que as coisas valiosas, verdadeiramente valiosas, não se compram, não se vendem, conquistam-se.

PARABÉNS, EDU!

O que nós queremos para ti é que sejas verdadeiramente FELIZ!

Monchique, 30 de Dezembro de 2011.

Paula e Graça

Devia existir uma gramática sentimental onde se pudesse descodificar a magnitude semântica de certos estremecimentos emotivos. A esta hora, vejo a minha fotografia num poema de Miguel Torga.  E abro os livros de Manuel do Nascimento nas mãos, novamente. Ali, nos dois vales encaixados das páginas abertas ao mundo, eles são um prolongamento das minhas mãos, das ondas do meu corpo, dos meus braços que se abrem como esses livros, num abraço indelével, afectivo e absoluto. Como o vento se entrega e se molda a todas as coisas que assopra, mesmo as mais remotas, intersticiais e insondáveis, eu abraço-me à ternura e carinho justificados naquele gesto. Um gesto alado, capaz de adoçar mesmo o mais casmurro, teimoso e duro dos corações. O meu coração feito de fragas.