Archive for Junho, 2013

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Chuva onírica

30/06/2013

Ao ridículo absurdo a que podem chegar certas más consciências demolidas. Esta tarde, enquanto um colorido cacho de balões subia a escadaria do céu, vi-me a perder lucidamente o juízo e a desejar sofregamente amarrar a minha vida àquele cordel de liberdade alada. Deixar que também ela fosse subindo, subindo, subindo, e que a plenitude estratosférica a tornasse menos pesada, menos negra, menos presa, menos sofrida. Que, ao cabo e ao resto, convertida em estado onírico, o deixasse de ser, por fim. Que ficasse retida numa nuvem de felicidade imerecida, impensada, indefinida, e fizesse chover sobre a superfície da Terra todos os sonhos que trago guardados dentro de mim.

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O poder do sonho

27/06/2013

De vez em quando, aparecem-nos defronte desafios que, de tão misteriosos e imprevistos, nos desafiam a nós mesmos. Duelos que travamos contra a fatalidade quando é a nossa própria natureza convivente que é posta à prova. Verbo de encher, estou sempre a mais em todos os lugares. Tudo o que digo ou escrevo me identifica, mas raramente me sinto identificado com aquilo que digo e escrevo. Bem assim, quando a vida mo consente, abro aos outros portas que mantenho invioláveis nas sete chaves de mim mesmo. Hoje, tive de fazer corresponder às minhas palavras as expectativas de que ando desencontrado quando o teor ilógico dessas mesmas palavras me é proposto a mim:
– Sonhe, sonhe sempre. Não deixe de sonhar em nenhum momento. A sonhar é que a gente vai lá!
– Sonhar para quê, se nenhum sonho se corresponde com a realidade!?
– Tenha paciência… Não é o sonho que anda à frente da realidade, é a realidade que fica sempre aquém do próprio sonho.

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Definição

27/06/2013

Não é amor, não é nada, se não sentes
Torvelinhos, ondas e correntes
A puxar para fora o que trazes
Aos sacões dentro do peito.
Mar de inquietações em que fazes
Parecer mais que perfeito
O mundo de ilusões onde navegas
Sem velas nem rotas definidas,
É o real sonhado que renegas
Nas marés que te são mais consentidas.

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Ilha de Tavira, 22 de Junho de 2013

22/06/2013

Mais mar. O pólo positivo do meu pólo negativo. De todas as grandezas naturais da Terra, esta é a única com a qual não tenho o desplante de me comparar. É que este céu fundeado em água e sal vai até aos confins do mundo (o real e o sonhado) e eu só consigo ir até aos confins amargurados do meu desespero.

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Os meus livros

22/06/2013

Somos, realmente, aquilo que lemos. As estantes deste sarcófago que é o meu quarto são autênticos relicários onde está guardado aquilo que sou e até onde poderei vir a ser. São eles o epicentro dos meus transes, dos meus maiores arrebatamentos psíquicos e das minhas ousadias mais inquietas. Estarão para mim, no futuro, como as ruínas de hoje estão para as singularidades das civilizações antigas, mortas às mãos aterradoras das próprias perdições. Leio-os até à quase volatilização dos sentidos e à súbita sublimação consciente do entendimento. E são tantas as vezes em que só sinto o coração a bater nas têmporas e no peito graças às páginas que devoro como tremoços. Os livros são pilhas onde assentamos os pés da imaginação para nos fazer crescer o tamanho da alma. Tenho em mim todas as Dulcineias idealizadas, todos os Raskolnikov atormentados e todas as baleias indomáveis dos mares da liberdade. Sou de capa dura, mas estou cheio de ilustrações para crianças.

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Desenlace

20/06/2013

Eu quero, eu posso, eu mando!
Estou no posto de comando
Da minha própria liberdade.
Fui dor e amor e crueldade,
Respirei ar puro nos pulmões.
E enquanto me perdi sem arte,
Louco como um louco a procurar-te,
Acabei como todas as paixões:
A respirar o pó de Marte.
Agora, o que passou, passou…
E é com tempo que me torturo.
O que foi durou o que durou…
E só o que é duro é seguro.
Do que partiu ficou o que ficou…
E não há futuro atrás do muro
Que a fantasia levantou
Entre o real e o fictício.
– É mesmo de vez, sim!-
Digo, do lado negro de mim,
Dando descanso ao cilício.
Adivinhando já no fim do fim
O princípio de outro início.

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“Teixeira tem Talento”

20/06/2013

Novo encontro com jovens da minha antiga escola secundária. Marginal na minha marginalidade, não podia fazer-me desapercebido ao aceno que vinha de onde também eu venho. Li-lhes três dos meus poemas, alto e bom som. Três peças de roupa a menos, que mostraram os confins da minha nudez desfigurada. Mas o meu maior pudor foi quando imaginei na plateia o a figura desatenta de um rapazola irrequieto, de ouvidos moucos e com penugem no buço. Um rapazola que só deu ouvidos aos poemas após quinze anos a carregar com eles, quando os leu para os outros, cheio de vontade de que esse menino ainda lá estivesse a fazer pouco dele, a depreciá-lo e a mandá-lo parar.