Posts Tagged ‘Silêncio’

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Os barulhos do silêncio

07/01/2013

Não sei como há-de ser, mas é impossível manter-me assim. Por mais que me esforce, não consigo dar volta a isto. Mato-me a endireitar os torcegões que me vão infligindo as cabriolas da vida. Em pequeno, quando a faina ia apenas no princípio, sobrava pano para mangas. Uma pálida sombra , um ínfimo desgosto, um pânico ou um amuo mais insignificantes, sossegavam-se facilmente na ladainha absurda de uma qualquer realidade fingida. Frutos da paciência instintiva e da compreensão piedosa, cada palavra, cada frase, cada gesto dos meus pais, emparedava, infinitamente, as atribulações infantis num redil de esquecimento. Fosse qual fosse a mágoa, a mesma justificação desembaraçada trazia prescrita a imunidade necessária à superação das angústias futuras. Agora, aos trinta, e com a viagem a meio, é pior. O fel das triagas morais insinua-se por tempo indeterminado na lembrança e a responsabilidade da existência mingua-se-me numa solidão acobardada. Pareço um surdo no fundo do abismo. Há as razões dos circunstantes tirando nabos da púcara, as vozes dos amigos metralhando argumentos, as sereias dos livros cantando ilusões, os solilóquios da consciência ecoando boas intenções, e, mesmo assim, sabe Deus os silêncios de amargura que ficam por romper.

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Calmaria

10/10/2012

Há nas ondas um silêncio de prata;
Nada perturba a sua imensidão.
Apenas a solidão de uma fragata
De que me fiz marujo capitão.
Peixe da terra e água doce,
Vou nas correntes como se fosse
Levado a navegar na calma
Dessa paz serena e natural.
Sabendo que há mais vida e há mais alma
Quanto mais bebo desse mar e desse sal.

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O silêncio

09/05/2012

A falta que me fazem as muralhas impenetráveis do silêncio. Às agressões passivas dos outros, reajo com espada de pau. Atraiçoo-me em cada impulso defensivo, perco-me em solilóquios indecifráveis, faço queixinhas à vida, dou ao fole da retórica em agoiros ocos e comovidos. Depois, é tarde demais. Crucificado numa incorrigível falta de capacidade em expressar-me, vou arrevesando o acerto das minhas razões até os remorsos e o arrependimento me abrirem feridas a gangrenar na consciência. E, então, pouco me vale o silêncio. É o mesmo que nada. Gastas todas as palavras possíveis, a consequente mudez não é mais a voz esclarecida da sinceridade total.