Posts Tagged ‘Vento’

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Querida solidão

04/07/2013

Envolvido num silêncio abafado – o resto do calor de cigarras que foi a tarde – vou assentando no caderno mais uma nuvem de inquietações reduzidas ao pó do verbo. Do mesmo modo que a poeira assenta nos caminhos, redefinindo-lhes a lonjura e a aridez depois da turbulência de uma rajada de vento ou do trânsito frenético das caravanas, também eu espero pelo final do dia para pôr em cursivo a poalha levantada na roda-viva dos meus dias. Uma noite prenhe de estímulos a tornar a vida mais explícita e mais inteligível aos meus olhos, já que aos olhos dos outros somos sempre uma imagem deformada por adivinhação, um rumor destemperado do nosso fundo. E é nestas horas de auto-observação meditativa que conto as demasias gastas com afinco em tudo a que entrego uma considerável parte de mim. E quanto desperdício, quantas gangas perniciosas encontro por arrumar nos contentores do absurdo. Travo lutas que não são minhas, combato moinhos dissimulados de gigantes, doem-me dores onde não cabem as medidas do meu corpo, venero mitos impossíveis, correspondo a paixões sem correspondência, espero milagres que não se concretizam, acredito em deuses que não existem. Enfim, um ror de insignificâncias falidas roubadas ao que realmente importa e onde procuro a minha própria significação. Mas não podia ser de outra forma. Se destas empresas não vier, um dia, uma revelação que me surpreenda a existência, é porque não fui digno dos seus dons ou porque lhes consenti sempre mais que aquilo que a vida me pedia.

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Sonho

28/03/2013

Na luz brilhando às rodelas
Soprava um vento Suão.
Eu podia estrelar a solidão
E ser inteiro às parcelas.
Os teus olhos eram janelas
Abertas ao calor da rua.
Olhando através delas
Eu era azul atrás da lua
E já não sabia se a vida
Era realmente vida
Ou a noite presumida
Entre a minha vida e a tua.

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Sopro sonoro

11/02/2013

Vento…
Música da monotonia
Tocada de todos os quadrantes,
Uiva agora como uivava dantes
O sopro frio da melodia
De pequenos homens gigantes
Moídos pela melancolia.

Vento…
Som da Natureza a respirar
As notas de uma canção
Ensaiada no pensamento
E nas cordas da imaginação –
Velas do esquecimento
Ou mós da inquietação?

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Boletim

09/09/2012

Calor, céu limpo e Sol no boletim
E neste lugar o frenesim
Depois do ócio.
Há palavras de equinócio
Vestindo cores nos arvoredos.
Versos batidos a chuva, frio e vento,
Assobiando nos penedos
As dores do fingimento.

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Diário

03/08/2012

O dia, escrito em resumo,
Foi a casca dum nada acontecido,
Foi um fruto espremido
Sem doce e sem sumo. 
Foi um negrume estendido
No comprimento do céu
E que nenhum bom vento
Demoveu.
Foi uma nuvem no pensamento
Com um nome igual ao meu.

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Destino

06/03/2012

Noite funda:

Calou-se tudo.

O vento, mudo,

Desarruma a vastidão

Da casa inteira.

Estou só.

Um frio de redenção

Apaga a ira do vulcão

Aprisionado na lareira.

E o fogo, lento e triste,

Apenas insiste

Em arder até à chama derradeira.